04 março, 2006

O Emblema Rubro da Coragem

The Red Badge of Courage, do Stephen Crane, é mais um exemplo das grandes sínteses de que eu falava no post passado. Que Crane tenha conseguido escrevê-lo aos vinte e quatro anos (incompletos) é quase inacreditável.

Impossível lê-lo sem pensar em Joseph Conrad, principalmente em seu Lord Jim. Ou melhor: impossível ler Conrad sem pensar em Crane, já que o The Red Badge foi publicado um pouco antes de o Conrad estrear na literatura (1895). Não são poucos os pontos de contato. Em se tratando de dados biográficos, cumpre dizer que os dois passaram a se conhecer muito bem depois que Crane se mudou para a Inglaterra. Além disso, ambos chegaram, tacitamente, à conclusão de que o ofício de escrever era, para eles, inescapável. Ainda que isso significasse uma vida solitária e cheia de angústia.

Passando à literatura propriamente dita, as semelhanças não são menos marcantes. Pode-se entender o Jim de Conrad como uma encarnação mais taciturna do Henry Fleming de Crane. Ambos são levados a investigar de perto a condição humana - a condição humana em seus aspectos menos agradáveis - ao protaganizarem episódios que exigiram uma firmeza moral (ou coragem) de que não dispunham no momento: Fleming foge de seu regimento durante a primeira investida do inimigo na batalha de Chancellorsvile (1863), na Guerra Civil norte-americana; e Jim põe-se a salvo de um naufrágio sem ajudar alguns de seus companheiros, que acabam morrendo. Ambos estão marcados.

Apesar de Fleming conseguir voltar ao seu regimento sem ser descoberto, isto é, sem que seus companheiros desconfiem do porquê de seu sumiço, as horas que precederam esse regresso foram tão terríveis (ou horríveis) quanto se possa imaginar. O medo de que seus verdadeiros motivos fossem descobertos fizeram com que ele conhecesse bem o que a inglesa Ann Radcliff entendia por horror: um estado de excitação mental que, diferentemente do terror, aguça os sentidos, em vez de bloqueá-los, numa apreciação morbidamente clara da própria desgraça:
He could not conciliate the forest. As he made his way, it was always calling out protestations. When he separated embraces of trees and vines the disturbed foliages waved their arms and turned their face leaves toward him. He dreaded lest these noisy motions and cries should bring men to look at him. So he went far, seeking dark and intricate places.
Ironicamente, é um ferimento - o emblema rubro da coragem, ou, no seu caso, da falta de coragem, que acaba por tomar um significado diametralmente oposto à letra escarlate de Hawthorne - infligido por um soldado da União (isto é, seu aliado) que lhe dá a possibilidade de voltar ao seu regimento com a desculpa de que se tinha desgarrado e de que estava a lutar em outras bandas. Ora, oportunidade tão generosa não seria concedida ao Jim de Conrad, que foi inclusive julgado publicamente. A descrição que Marlow nos dá de Jim, ao vê-lo pela primeira vez no tribunal, permite-nos entrever a angústia e o sentimento de culpa que uma existência inteira não seria capaz de dissipar. Fleming, por sua vez, faz bom uso da chance que se lhe é apresentada: acaba por se tornar o soldado mais destacado de seu regimento, fazendo sempre questão de empunhar um segundo emblema (esse conquistado genuinamente): a bandeira das tropas aliadas.

--

Rubem Fonseca, nesse que é um de seus melhores contos, Labaredas nas Trevas (presente no volume Romance Negro e Outras Histórias), nos dá uma versão fictícia bem curiosa da relação Conrad-Crane. Note-se que o subtítulo do conto é Fragmentos do diário secreto de Teodor Konrad Nalecz Korzeniowski, sendo que o nome de Joseph Conrad era, antes de naturalizar-se inglês, Józef Teodor Konrad Korzeniowski. Aí vão alguns trechos.
6 de Agosto, 1900: Acordei pensando em Crane. Sempre me interessei pelos novos escritores que surgem. Quero saber o que estão fazendo, se têm a mesma força que eu. Descobri a existência de Crane (já se passaram cinco anos) ao entrar numa livraria em Londres e encontrar The Red Badge of Courage. Peguei o trem para Sussex e naquela noite mesmo li o pequeno volume de menos de duzentas páginas. Como um sujeito com uma idade tão ridícula (Crane tinha vinte e três anos ao escrever o livro) conseguira fazer uma obra tão perfeita? Nela havia a tragédia pura, não como nos gregos, um capricho dos deuses, mas como uma criação exclusiva dos homens. Ali estava tudo que me interessava: o fracasso, a covardia, o horror. O horror.

(...)

10 de Outubro, 1900: Apanhei novamente a pasta de recortes. Procuro aqueles sobre Lord Jim. Sei tudo o que escreveram, mas releio assim mesmo. A repercussão de crítica e de público foi excelente. Mas lá está, uma linha apenas, no meio de um aluvião de elogios: "Há momentos em que Lord Jim lembra The Red Badge, de Crane..." Minhas mãos tremem. Tenho certeza de que ninguém, no mundo inteiro, dirá hoje que eu, algum dia, fui influenciado por Crane. Mesmo assim, sinto um aperto no peito, como se tivesse no coração uma ferida cicatrizada. Como pode um morto assombrar assim a minha vida?

(...)

2 de Julho, 1924: Passei a noite acordado, com dores lancinantes na perna. Pensei muito em Crane. Escrevo novamente o nome dele: Crane. O fogo na lareira está quase apagando. Sinto-me tão fraco que tenho medo de não ter forças para aproveitar esta ocasião em que estou sozinho e levantar da cama e, sem ninguém ver, jogar esse diário sobre as brasas da lareira, para que as labaredas destruam todas as referências que fiz ao seu nome.