25 junho, 2006

Última Leitura

Acabaram, nessa última segunda-feira, a revista Primeira Leitura, melhor revista do país em sua área, e o site Primeira Leitura, o maior e melhor sobre política em circuito nacional. O site permanecerá ativo por pelo menos mais um ano, para consultas - por isso continua na minha seção de links. Foi acrescentado o link do blog do Reinaldo Azevedo.

Quem acompanhava site e revista sabe que o que há de realmente lamentável não é a possível perda de contribuições pontuais (quem já foi ver o blog do Reinaldo percebeu que ele continua escrevendo freneticamente), mas sim a desarticulação de um esforço conjunto que dificilmente voltará a ser visto num futuro próximo. Ainda que concordemos com a decisão dos editores de não depender da boa vontade de terceiros para continuar, não deixa de ser revoltante (e emblemático) que a revista tenha sucumbido graças a uma escassez de anunciantes...

A aridez que os leitores da Primeira Leitura vão enfrentar de agora em diante é dupla: advirá da incompetência dos que continuam e, principalmente, do talento que sabemos existir mas que não tem condições (financeiras) de se sustentar.

20 junho, 2006

Confusão

Fiz uma confusão danada no último post; a frase que eu queria citar diz Seriousness is the only refuge of the shallow. Confundi com outra, também do Wilde: Consistency is the last refuge of the unimaginative. Bem se vê que a mensagem continua perfeitamente válida.

15 junho, 2006

O Refúgio dos Sérios

Seriousness is the last refuge of the unimaginative.
- Oscar Wilde
Ainda que não concordemos com o desabafo de Wilde, convém notar que o que se entende por seriedade, hoje, é mais uma restrição que um estado de espírito. Já estamos cansados de ouvir: 'esta é situação muito séria, não devemos fazer isso ou aquilo'. Que houve com a high seriousness (ou extreme seriousness, não lembro exatamente o termo) de Matthew Arnold, que sempre me pareceu ser um compromisso interno, um esforço dialético interiorizado, e não uma penca que normas a ser seguida?

Ora, se bem conhecemos Wilde, unimaginative é empregado como antônimo de charming. Nesse caso, não haveria como discordar: nada mais enfadonho que a seriedade renitente e balofa de quem a enverga não por opção, mas por falta de criatividade. Resta saber se essa amputação se limita à esfera social (o que seria tolerável) ou se compromete as próprias faculdades intelectuais do indivíduo.

Trofimov, personagem da peça O pomar de cerejas (The cherry orchard) do Tchekhov, não tem a menor dúvida a esse respeito:
The huge majority of the intelligentsia I know seek nothing, do nothing and aren't yet capable of hard work. They call themselves intelligentsia, but (...) they are poor students, they read nothing seriously, they don't do a thing, they just talk about science, they understand little about art. They're all serious, they all have stern expressions, they all only talk about what is significant, they talk philosophy (...) I fear and dislike very serious expressions, I'm frightened of serious conversations. Better to be silent!
Está respondida então a nossa pergunta: não é a seriedade que mutila; são os mutilados (e não somente os unimaginative de Wilde) que se refugiam na seriedade. Penso logo nos departamentos de humanidades Brasil afora: terão muita matéria para riso se apenas conseguirem rir de si mesmos.

11 junho, 2006

The Dangling Conversation

Para você-sabe-quem-você-é.


It's a still life watercolor,
Of a now late afternoon,
As the sun shines through the curtained lace
And shadows wash the room.
And we sit and drink our coffee
Couched in our indifference,
Like shells upon the shore
You can hear the ocean roar
In the dangling conversation
And the superficial sighs,
Are the borders of our lives.

And you read your Emily Dickinson,
And I my Robert Frost,
And we note our place with bookmarkers
That measure what we've lost.
Like a poem poorly written
We are verses out of rhythm,
Couplets out of rhyme,
In syncopated time
Lost in the dangling conversation
And the superficial sighs,
Are the borders of our lives.

Yes, we speak of things that matter,
With words that must be said,
Can analysis be worthwhile?
Is the theater really dead?
And how the room has softly faded
And I only kiss your shadow,
I cannot feel your hand,
You're a stranger now unto me
Lost in the dangling conversation.
And the superficial sighs,
In the borders of our lives.

(Paul Simon)

06 junho, 2006

The Road to Guantanamo


The Road to Guantanamo, mistura de drama e documentário do inglês Michael Winterbottom, ganhou o Urso de Prata no último festival de Berlin. Estamos em 2001, poucas semanas depois do 9/11. O filme mostra a trajetória de quatro amigos ingleses de origem paquistanesa que voltam ao Paquistão para visitar familiares que ficaram para trás e para que um deles possa se casar. Enquanto se divertiam e faziam compras, recebem notícias dos bombardeios norte-americanos no Afeganistão e resolvem ir para lá. "Pela experiência e para ajudar," diz um deles.

A tal 'experiência', como puderam constatar desde o primeiro momento (e como poderia ser facilmente antecipado por qualquer entidade mental minimamente sã) não foi das mais agradáveis. Consternardos, vendo que sua presença só poderia estorvar um e outro lado, resolvem voltar para casa. No caminho de volta, por um desses caprichos do destino, aliado a uma tremenda má sorte, acabam entrando num caminhão cheio de combatentes do Taleban que, também coincidentemente, estavam armados até os dentes com AK47's e similares. Pobrezinhos.

Não muito depois, o caminhão é detido por forças norte-americanas. A partir daí, parece-me ser a intenção dos produtores do filme que nos choquemos com a violência com que os terroristas detidos são tratados. Eu, por outro lado, me pergunto por que diabos os americanos foram tão bonzinhos. Ainda assim, resta alguma simpatia pelos três ingleses (o outro extraviou-se no caminho) que, supostamente (essa hipotése não é questionada pelo filme, apesar de contarmos apenas com a palavra dos ex-prisioneiros), não tinham culpa alguma.

Os prisioneiros são então levados a Guantanamo Bay, Cuba, onde são recebidos e tratados com uma virulência que se assemelha à de uma brincadeira de criança frente ao tratamento dispensado por eles próprios quando os papéis se invertem. Os ingleses são minuciosamente investigados e chega-se à conclusão de que não há provas suficientes para incriminá-los. Vale lembrar que isso não significa que sejam, de fato, inocentes: o filme esqueceu de mencionar que 17% dos prisioneiros liberados são recapturados em ações terroristas. De qualquer maneira, os três ingleses são soltos e voltam à Inglaterra, onde podem aproveitar a paz que tanto admiram e que tanto vilipendiaram em seu pequeno documentário.

Já estava me preparando para dar adeus a mais essa propaganda antiamericana quando surgiu, sem prévio aviso, o nec plus ultra de todo o filme: ao fim e ao cabo, um dos três ingleses disse que não se arrepende de nada do que fez. Isso mesmo, ó estupefato leitor: não se arrepende de ter ido, sem razão aparente, ao Afeganistão, apesar de isso ter-lhe rendido três anos de cativeiro forçado, em péssimas condições. Alternativa um: o cara é definitivamente doudo. Alternativa dois: a decisão intempestiva de ir ao Afeganistão tinha, afinal, sua razão de ser. Mas o filme não está nem poderia estar interessado nisso.

The Road to Guantanamo é mais um sintoma de uma civilização que põe em risco seus mais caros pressupostos sob o pretexto de defendê-los. Convém diferençar, de uma vez por todas, os amigos dos inimigos.

02 junho, 2006

Time Table


A carved oak table,
Tells a tale
Of times when kings and queens sipped wine from goblets gold,
And the brave would lead their ladies from out of the room
to arbours cool.

A time of valour, and legends born
A time when honour meant much more to a man than life
And the days knew only strife to tell right from wrong
Through lance and sword.

Why, why can we never be sure till we die
Or have killed for an answer,
Why, why do we suffer each race to believe
That no race has been grander
It seems because through time and space
Though names may change each face retains the mask it wore.

A dusty table
Musty smells
Tarnished silver lies discarded upon the floor
Only feeble light descends through a film of grey
That scars the panes.
Gone the carving,
And those who left their mark,
Gone the kings and queens now only the rats hold sway
And the weak must die according to nature's law
As old as they.

Why, why can we never be sure till we die
Or have killed for an answer,
Why, why do we suffer each race to believe
That no race has been grander
It seems because through time and space
Though names may change each face retains the mask it wore.

(Banks / Collins / Gabriel / Hackett / Rutherford)