30 janeiro, 2008

Blog Irracional

A proliferação dos blogs pela internet testemunha, é claro, a necessidade de preencher certas lacunas do jornalismo 'oficial'. O sujeito que se julga insatisfeito com a cobertura dos jornais sobre a China pode ir lá e criar um blog só sobre os desmandos dos generais chineses; outro que não suporta mais a onda antitabagista (ouviram falar da moça que se maquiou pra simular um câncer de boca numa propaganda?) pode criar um blog pró-tabagismo; outro que não aguenta mais ver morenas altas e magrelas pode criar um blog com imagens de japonesas de biquini.

Mas, creio eu, o verdadeiro charme por trás da idéia do blog tem a ver com o impulso irracionalista presente em todo ser humano (sim, sem exceção; seria racional demais procurar exceções agora). O blogueiro sabe mais do que ninguém que nós somos os nossos preconceitos. Que não se veja nisso preguiça mental, uma tentativa de escapar a análises pormenorizadas e com uma penca de referências sobre o que quer que seja. Ninguém seria suficientemente burro pra negar a importância do trabalho pesquisado com cuidado, ainda mais em se tratando de áreas que não abrem espaço pra divagação. Em pleno 2008, de fato não há mais muito sentido em escrever coisas do tipo 'creio que se trocássemos o material por uma liga de alto carbono o teto aguentaria'. Troca-se, testa-se e escreve-se o resultado.

Por outro lado, ainda faz muito sentido dizer que pessoas que riem muito são desagradáveis e que calçar um tênis all-star é esteticamente degradante. Se fizessem um estudo científico e comprovassem que quem calça all-star realmente não entende nada de boa aparência, a coisa perderia toda a graça. Já posso até imaginar alguns entrevistados, ex-usuários do tênis, cabisbaixos, segurando um par pelos cadarços, declarando-se finalmente iluminados pela estatística ou pelo cálculo diferencial.

Poucos colunistas atuais deixaram de dar o braço a torcer à lógica engomadinha dos jornais. O Pereira Coutinho na Folha de S. Paulo é uma exceção provável, mas é óbvio que jamais chegaria a escrever sobre all-star ou pessoas que fazem barulho ao comer. Bem que devia. Daria uma boa lição de jornalismo aos que se revoltam (vi alguns no orkut) com o fato de ele escrever sobre assuntos 'que não interessam a ninguém'. Se não interessassem a ninguém ninguém o leria, e se ninguém o lesse o problema seria da Folha, certo? Quase duas décadas depois da queda do muro de Berlin esse raciocínio protocapitalista ainda parece difícil de engolir.

Longe de representar uma espécie de modéstia epistemológica, essa mania de querer suprimir a escrita ensaística e pré-racional parte do pressuposto, obviamente falso, de que há explicação racional pra tudo aquilo que nos interessa e que por isso pode ser tema de crônica ou artigo. A idéia parece plausível a princípio: 'somos modestos, temos o bom senso de rejeitar todo e qualquer impulso que nos surja sem motivo bem aparente e documentado'. Mas em verdade há aí arrogância: a arrogância de achar que é sempre possível encontrar tais motivos. Passamos da modéstia ao gnosticismo num pulo.

Termino o post com uma listinha de coisas que me irritam nas pessoas, sem comentários adicionais, é claro. Se não me engano vi isso pela primeira vez no blog do Reinaldo Azevedo:

- Dizer assistir ao BBB por motivos sociológicos/antropológicos;
- Fazer questão de contar que odeia o BBB pra todo mundo;
- Tênis all-star;
- Barulho ao mastigar;
- Dizer gostar de um filme por causa do roteiro ou do posicionamente das câmeras;
- Gostar de U2 ou Los Hermanos ou Cordel do Fogo Encantado etc.;
- Declarar-se eclético em qualquer área;
- Fazer um 'V' com os dedos ao posar pra fotografias;
- Demonstrar alegria exagerada;
- Viajar pra países desconhecidos sem motivo especial, pela 'experiência';
- Identificar-se com mais de dois dos itens acima.

Adeus.

23 janeiro, 2008

Ennui ou Um Romance Revolucionário

Já tiveram a sensação de estar lendo o pior livro possível para um determinado momento? Foi o que senti durante a última semana inteira, semana penosamente dedicada à leitura das 520 páginas do Le Rouge et le Noir, de Marie-Henri Beyle, vulgo Stendhal. Li-o na esperança de encontrar algo da glória napoleônica, de heroísmo militar em geral, ou pelo menos da piedade do mais alto escalão eclesiástico. Quanta ingenuidade! De fato, Julien Sorel, filho de carpinteiro, é obcecado por Napoleão e procura seguir-lhe os passos, da miséria à consagração universal, e, apesar de conseguir ascender socialmente, fá-lo de maneira a ser comentado em cafés e bailes parisienses, mas nunca em livros de história. O que poderia ser pior que small talk francês para quem anseia por bravura medieval e querelas teológicas?

Le Rouge et le Noir é um daqueles livros a que devemos certa reverência antes mesmo de começarmos a lê-lo. Ele é cheio de pioneirismos importantinhos, como dizer que o romance é um espelho da sociedade, e que se a imagem daí resultante nos parece aviltante é culpa da sociedade, não do romancista etc. Há também aquelas alusões bem pouco veladas, observação obrigatória em rodas de leitura de velhinhas hiperativas, do tipo fazer com que o social climber Sorel tenha de subir escadas para entrar no quarto de suas amantes. Já se pode até imaginar possíveis títulos de ensaios sobre o livro: Stendhal's Subtle Imagery: Making Money Through the Roof of the Night ou A Choice of Ladders: Either Social or Naughty. É claro que esses detalhes só soam ridículos porque a paródia é intencionalmente ridícula, mas ela serve pra dar uma idéia do meu drama pessoal.

Por que, afinal, tanta antipatia? Por que tanto ennui, como diriam os franceses? Primeiro porque o livro é francês. Pior, trata da alta sociedade francesa. Antes que a patrulha esquerdopata venha sugerir que é porque Stendhal, Sorel etc. eram liberals, defendo-me com o 'revisionismo' sempre indispensável nesses horas: Sorel despreza, ou ao menos diz desprezar, a aristocracia e a religião. Mas eis que, durante todo o livro, identifica-se somente com aristocratas e figuras eclesiásticas, e não por interesse. Admira extasiado (e inclusive faz questão de participar) do desfile em homenagem ao Rei de --. Mal consegue disfarçar a reverência que lhe surge espontaneamente ao contemplar a plácida figura do bispo de Agde. Declara-se entorpecido com os ritos, preces e canções que presencia; pressente o que poderíamos chamar cheiro da eternidade. É claro que tudo isso trai um caráter afeito ao grandioso, coisa que um orgulho plebeu tão forte já deixava entrever desde muito cedo.

Mas, infelizmente para nós, não há nada de grandioso nas peripécias de Sorel, apesar de seu oportunismo ser realmente exemplar. Refiro-me em particular ao romance com Mathilde, filha do marquês de la Mole, para quem Sorel trabalha como secretário. Lembram-se daquele filme Closer, em que os casais formam-se apenas para ruir depois de 5 minutos? É mais ou menos desse tipo a inconstância de Mathilde: julga-se apaixonada pelo nobre plebeu, mas, ao perceber que o possui completamente, enjoa e cai fora. Mas eis que Sorel, seguindo o conselho de um amigo especialista em relacionamentos, joga atenções para outra e, ó surpresa, lá está Mathilde apaixonada novamente.

O que seria isso senão uma ode, intencional ou não (provavelmente não), ao conservadorismo? Sorel pergunta a Mathilde: que garantia tem de que não será enjeitado de novo dentro em breve? Nenhuma, é claro. Isso lembra a observação de Chesterton segundo a qual todo bom revolucionário é em última análise também conservador: jamais conseguirá pintar o mundo inteiro de azul se amanhã já tiver mudado de idéia e preferir o vermelho. Muito pelo contrário, tem de querer sempre o azul, e com uma insistência obstinada. A mudança, longe de ser o aspecto mais importante da realidade, tem o péssimo hábito de degradar aquilo que foi erguido graças a um esforço de conservação. Muitas das virtudes que nos são mais caras não são muito mais que um esforço desse tipo. Ou alguém já ouviu falar em lealdade esporádica?

Já ficou claro que num embate entre Parmênides e Heráclito fico com Parmênides all the way. Graças a Aristóteles, também sabemos que mudanças não só existem como podem ser (e muitas vezes são) importantes. Quanto me perguntam se sou conservador, respondo: é claro, quem não gostaria de conservar o que é bom e de melhorar o que pode ser melhorado? Edmund Burke descrevia seu ideal de homem político precisamente assim: A disposition to preserve, and an ability to improve.

14 janeiro, 2008

A Força das Idéias

Nostromo difere de seus antecessores mais conhecidos (Lord Jim e Heart of Darkness) por ampliar o foco e diminuir o ritmo da narrativa: temos agora vários personagens cujas aventuras e desventuras são relatadas mais pausadamente, levando um resenhista da época a declarar que There are superb things in the book, but they do not redeem it from the fault of tediousness. Outro comentário me parece bem mais direto ao ponto: as muitas perspectivas conflitantes aqui apresentadas parecem ilustrar um gigantesco exercício de futilidade. É bem verdade que a situação política na república de Costaguana é menos má no final do livro do que no começo, mas todos parecem perceber que o fantasma de novas revoluções não está tão distante quanto seria desejável. Mas será todo esforço realmente fútil? Conrad oferece alternativas viáveis ou pensava apenas em escrever uma ode à impotência humana?

A primeira opção é-nos oferecida pelo costaguanero Charles Gould, inglês de criação que retorna a Costaguana para reaver e salvar a mina de prata de seu falecido pai. Eventualmente torna-se o homem mais importante da república, mas não sem sua própria teorização do processo:
What is wanted here is law, good faith, order, security. Anyone can declaim about these things, but I pin my faith to material interests. Only let the material interests once get a firm footing, and they are bound to impose the conditions on which alone they can continue to exist. That's how your money-making is justified here in the face of lawlessness and disorder. It is justified because the security which it demands must be shared with an oppressed people. A better justice will come afterwards. That's your ray of hope.
É claro que Gould estava miseravelmente errado: o sucesso de sua mina não só não garantiu 'lei, boa-fé, ordem e segurança' por muito tempo como exacerbou a velha e onipresente ladainha antiimperialista. Devemos respeitar a voz do povo, dirão os esquerdinhas mais convictos. Ocorre que o povo muda de lado assim que percebe que isso pode trazer algum benefício, e assim é também no romance de Conrad. Gould se engana não por querer segurança e estabilidade (além do suporte financeiro que se faz necessário), mas por supor que, satisfeito o interesse financeiro, todas as demais regalias se lhe apresentariam mui graciosas, como que espontaneamente. Não se distancia muito disso o credo de alguns liberais de hoje em dia.

Que fazer então? Já teríamos licença para partir pro extremo oposto, o ceticismo estiloso de Martin Decoud, que não vê nos costaguaneros muito mais que selvagens incapacitados para qualquer pretensão civilizatória? Os críticos que, como sempre, só vêem discurso antiimperialista nos escritos de Conrad ignoram uma quantidade razoável de evidência textual que parece corroborar a visão de Decoud. É dele que surge a idéia do plano separatista: traçar uma divisória definitiva entre Sulaco (a cidade portuária onde se localiza a mina dos Gould) e o restante de Costaguana.

Mas a praga da idéia fixa não se realiza somente através de fantasias totalizantes -- a fé materialista de Gould (This wealth-producing thing, to which his sentimentalism attaches a strange idea of justice... a passion has crept into his cold and idealistic life, a passion which I can only comprehend intellectually.), o ceticismo de Decoud, o amor à 'liberdade' do velho Viola etc. Ela se manifesta sob formas menos abrangentes (mas não menos obsessivas) também, como o ardente desejo de autopromoção de Nostromo (You never change, indeed, she said, bitterly. Always thinking of yourself and taking your pay out in fine words from those who care nothing for you.) ou a obstinada lealdade de Dr. Monygham aos Gould.

Esse último caso exemplifica bem o que Paul Johnson chamou um dia the heartlessness of ideas: o sacrifício de tudo e todos por uma idéia que é tão mais atraente quanto mais inalcançável. Na tentativa de ganhar tempo com Sotillo (a essa altura aliado do rebelde Montero), que estava desesperadamente à procura da prata desaparecida, Dr. Monygham afirmou saber onde o carregamento estava. Ocorre que, ao fazê-lo, a vida do refém Hirsch (Hirsch testemunhara o acidente que levou ao 'desaparecimento' da prata) perdeu todo seu valor. Vejam a reação do médico à sugestão de Nostromo:
No? Perhaps, if you had not confirmed Sotillo in his madness, he would have been in no haste to give the estrapade to that miserable Hirsch.

The doctor started at the suggestion. But his devotion, absorbing all his sensibilities, had left his heart steeled against remorse and pity.
Um pouco antes disso Conrad já tinha observado que
This claim, exalted by a spiritual detachment from the usual sanctions of hope and reward, made Dr. Monygham's thinking, acting, individuality, extremely dangerous to himself and to others, all his scruples vanishing in the proud feeling that his devotion was the only thing that stood between an admirable woman [Mrs. Gould] and a frightful disaster.
Se é bem verdade que Conrad não nos fornece uma alternativa já pronta e certamente viável, ele mostra com o talento de sempre o porquê de as muitas que foram apresentadas serem impraticáveis. É claro que tantos fracassos em sucessão não poderiam deixar de nos sugerir um possível remédio. Longe de ser um grande exercício de futilidade, como queria o já desiludido Decoud, o elemento em comum na 'derrota' dos Gould, Decoud, Nostromo, Viola, Dr. Monygham etc. nos ensina que é a paixão cega pela idéia, seja ela qual for, que nos leva à perdição.

08 janeiro, 2008

Imaginação Moral

- Você, no lugar do Lord Jim, também teria pulado?

Quem foi Lord Jim? Por praticidade, transcrevo o primeiro parágrafo do ensaio The Moral Sense in Joseph's Conrad Lord Jim do George A. Panichas, da Universidade de Maryland (leia a íntegra aqui):
Lord Jim (1900), Joseph Conrad’s fourth novel, is the story of a ship which collides with "a floating derelict" and will doubtlessly "go down at any moment" during a "silent black squall." The ship, old and rust-eaten, known as the Patna, is voyaging across the Indian Ocean to the Red Sea. Aboard are eight-hundred Muslim pilgrims who are being transported to a "holy place, the promise of salvation, the reward of eternal life." Terror possesses the captain and several of his officers, who jump from the pilgrim-ship and thus wantonly abandon the sleeping passengers who are unaware of their peril. For the crew members in the safety of their life-boat, dishonor is better than death.
Se com 'você' eu estiver me referindo a uma amostra aleatória da população, é bem provável que a resposta à pergunta seja não só afirmativa, mas também obviamente afirmativa. Já se comentou o quanto a consternação de Lord Jim (consternação que começa no life-boat mesmo, ao contemplar o aspecto odiento de seus cúmplices) parece hoje exagerada ou até afetada. Se não havia alternativa que não envolvesse risco de vida, por que tanta autoflagelação?

Já Jim pensava diferente; nas palavras do próprio Conrad, he was one of us. Parece que desde muito cedo percebeu que, aonde quer que fosse, a sombra do passado o alcançaria e renovaria as angústias do famigerado pulo, numa espécie de mito do eterno retorno. A imaginação moral não dá espaço para o esquecimento, e de que adianta tanta imaginação moral uma vez que a patifaria já foi feita? Jim reconhece que o máximo que pode esperar é uma redenção parcial, a redenção de quem já se sabe perdido.

Falando em imaginação moral, pensa-se logo em Conrad porque muito de seus personagens parecem forjados com isso em mente. Ao explicar a gênese de Nostromo, seu romance de 1904, lembra que só lhe ocorreu contar a história do roubo de um carregamento de prata numa pequena república na América do Sul (cujos rumores ouviu pela primeira vez quando era ainda um jovem marinheiro) quando pensou em fazer do larápio um sujeito de bom caráter - a perfectly nice fellow. Nostromo em realidade é bem mais que isso; é respeitado e admirado em toda a republiqueta fictícia de Costaguana por sua bravura e lealdade. Reputação somente pode não parecer suficiente; a constância do caráter de Nostromo é-nos assegurada diretamente: He is a man with the weight of countless generations behind him and no parentage to boast of... Like the People.

Nostromo é então encumbido de salvar um carregamento de prata da sanha dos revolucionários locais. Circunstâncias forçam-no a esconder o tesouro numa ilha próxima até que as coisas voltem ao normal, mas prefere dizer que o carregamento foi perdido no mar para poder posteriormente resgatá-lo - e enriquecer - lentamente. Nostromo tenta em vão expiar parte de sua culpa ao exortar contra os interesses materiais dos donos da mina: os estrangeiros, os ricos, que prosperam às custas da lealdade de seus subordinados. Ora, Nostromo sabe que é tão ou mais culpado que o mais inescrupuloso dos capitalistas; ao seduzir a jovem Giselle, avisa que ela pretende casar-se com um ladrão.

A perspectiva de ter de voltar inúmeras vezes à ilha onde o tesouro se encontra enterrado (para recuperá-lo a pouco e pouco) é também, está claro, angustiante. Nostromo não poderia ele mesmo ser mais explícito: considera-se escravo da prata, escravo da ilha:
A transgression, a crime, entering a man's existence, eats it up like a malignant growth, consumes it like a fever. Nostromo had lost his peace; the genuineness of all his qualities was destroyed. He felt it himself, and often cursed the silver of San Tomé. His courage, his magnificence, his leisure, his work, everything was as before, only everything was a sham. But the treasure was real. He clung to it with a more tenacious, mental grip. But he hated the feel of the ingots. Sometimes, after putting away a couple of them in his cabin -- the fruit of a secret night expedition to the Great Isabel -- he would look fixedly at his fingers, as if surprised they had left no stain on his skin.
Já pouco antes de expirar tenta se livrar do segredo que lhe pesa tanto. A prata é incorruptível, assim como a imaginação que lhe nega um sono (eterno ou não) tranquilo: But there is something accursed in wealth. Señora, shall I tell you where the treasure is? To you alone... Shining! Incorruptible!

01 janeiro, 2008

Imaginação Social

Em épocas como essa, quando os feriados nos forçam a interagir socialmente não só com os usuais desconhecidos, mas também com conhecidos e familiares que, se dependesse de nós, seriam também desconhecidos, vale mais do que nunca a observação de Adam Smith, no Theory of Moral Sentiments: a identificação moral, ou social, exige um esforço de nossa sympathetic mind. Se não nos identificamos ou nem sequer compreendemos a desgraça alheia, como poderemos lamentá-la? Se você não consegue imaginar o efeito provável de uma observação, de uma piada ou de um gesto, você é socialmente burro ou sem imaginação social.

O curioso é que eu mesmo sempre fui acusado de socialmente incapacitado, acusação que, claro está, significa tão somente que eu não faço amizades no elevador. Aliás, sou levado a crer que os mais extrovertidos são os que menos têm imaginação social: as besteiras que dizem e fazem são relevadas justamente por serem extrovertidas e simpáticas. A imunidade social leva-os à preguiça mental. Trata-se de mais um caso em que a inobservância das regras nos leva à convicção de que as regras não existem.

Pois bem, que bom seria se todos tentassem imaginar a reação do interlocutor antes de dizer algo! Não há nada aqui de autocensura (se houvesse eu seria o primeiro a repudiar a idéia): opiniões razoáveis expressas civilizadamente nunca podem ser ofensivas (exemplo de opinião razoável expressa civilizadamente: parada gay é idiotice), a não ser que haja incompressão por parte de quem está ouvindo. Mas aí o problema já não é nosso. Vejam que o esforço imaginativo de que falo é bem menor do que parece: Isaiah Berlin parece sempre meio desesperado com a perspectiva de transportar-se à realidade de homens de culturas diferentes para melhor compreendê-los. Há razão para desespero; quantos de nós seria capaz de imaginar com exatidão a reação de um egípcio antigo ao sentarmos na tumba de seu avô? Ou a reação de um samurai se mostrássemos o dedo para sua mãe? Mas o que se exige aqui não é nada disso; muito pelo contrário, falamos dos brasileiros, uma gente que chega a ser tediosamente uniforme e previsível.

Exemplos de falta de imaginação social? Convidar alguém para um churrasquinho e pedir que o sujeito leve a carne (acreditem, isso aconteceu comigo recentemente); comentários, ainda que cautelosos, sobre episódios potencialmente desagradáveis na vida de uma pessoa, a menos, é claro, que a ocasião exija; demonstrações extremadas de autocomiseração, principalmente quando não temos como nos identificar com o motivo; etc.

Nesse último caso, não temos o que imaginar, a não ser como seria bom estar longe dali.