17 maio, 2007

Bento 16 e Tocqueville

Dentre os odiadores da religião em geral e da Igreja católica em particular, costuma-se lembrar com um risinho de superioridade o fato de a Igreja ter perdido influência na esfera política das nações cristãs, como se isso indicasse o início de um declínio inexorável que terminaria com a total supressão da influência religiosa em nossas vidas. Ninguém precisa ser muito esperto pra perceber que a secularização do Estado moderno é condição necessária para que a Igreja sobreviva. Foi o que observou Bento 16 há uns dias, e foi o que observou o francês Alexis de Tocqueville há quase 180 anos, quando falava, no seu Democracia na América (falo desse livro depois), da contribuição do cristianismo para a formação e a manutenção daquela então nova república democrática que ele tanto admirava.

Na sessão inaugural da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, em Aparecida, o papa Bento 16 disse o seguinte:
El respeto de una sana laicidad - incluso con la pluralidad de las posiciones políticas - es esencial en la tradición cristiana auténtica. Si la Iglesia comenzara a transformarse directamente en sujeto político, no haría más por los pobres y por la justicia, sino que haría menos, porque perdería su independencia y su autoridad moral, identificándose con una única vía política y con posiciones parciales opinables. La Iglesia es abogada de la justicia y de los pobres, precisamente al no identificarse con los políticos ni con los intereses de partido.
No primeiro volume do Democracia na América, capítulo 9 (The Main Causes Which Tend to Maintain a Democratic Republic in the United States), lemos:
When a religion seeks to base its empire only upon the desire for immortality which torments every human heart equally, it can aspire to universality but, when it happens to combine with a government, it has to adopt maxims which only apply to certain nations. Therefore, by allying itself to a political power, religion increases its authority but loses the hope of reigning over all.

As long as religion relies upon feelings which are the consolation of every suffering, it may attract the human heart to itself. When it is mixed up with the bitter passions of this world, it is sometimes forced to defend allies who have joined it through self-interest and not through love; it has to repel as enemies men who, while fighting against those allies of religion, still love religion itself. Thus, religion cannot share the material strengths of the rulers without suffering some of those animosities which the latter arouse.

(...)

Religion, by uniting with different political powers, can therefore form only burdensome alliances. It has no need of their help to survive and may die, if it serves them.