07 fevereiro, 2007

Um Post em Silêncio

Entusiasmado com a constatação de que três das quatro coisas que mais afligem minha paciência estão de alguma maneira relacionadas com o barulho (são elas: pessoas com mastigação barulhenta, qualquer tipo de barulho enquanto durmo e o barulho do telefone), resolvi escrever sobre o silêncio. Até o quarto membro da minha listinha, o calor, tem sua relação com a falta de silêncio: o pesquisador norte-americano William J. Shaffor, da Princeton University, mostrou recentemente que a agitação das partículas de ar (provocada pelo aumento excessivo da temperatura) num ambiente suficientemente pequeno e cuidadosamente vedado leva a colisões intermoleculares de uma intensidade tal que podem ser percebidas pelo ouvido humano.

Mas o silêncio tem uma história comprida e tortuosa, e muito me admira que ainda não tenham escrito (até onde eu saiba) uma História Universal do Silêncio. Como todo conceito excessivamente simples, o de silêncio pode assumir desdobramentos os mais variados e até mesmo contraditórios. Bem sei que essa última frase nada significa sem exemplos. Tomemos o capítulo LV das Memórias Póstumas, O Velho Diálogo de Adão e Eva:
BRáS CUBAS
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VIRGíLIA
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BRáS CUBAS
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VIRGíLIA
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BRáS CUBAS
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VIRGíLIA
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BRáS CUBAS
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VIRGíLIA
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BRáS CUBAS
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VIRGíLIA
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BRáS CUBAS
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . !

VIRGíLIA
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . !
Outro exemplo bem conhecido, e que segue a mesma linha, pode ser encontrado no Anna Karenina de Tolstói, no momento em que Levin e Kitty finalmente se reconciliam:
'Here,' he said, and wrote the initial letters: w, y, a, m: t, c, b, d, i, m, n, o, t? These letters meant: 'When you answered me: "that cannot be", dit it mean never or then?' There was no likelihood that she would be able to understand this complex phrase, but he watched her with such a look as if his life depended on her understanding these words.

She glanced at him seriously, then leaned her knitted brow on her hand and began to read. Occasionally she glanced at him, asking with her glance: 'Is this what I think?'

'I understand,' she said, blushing. (...)

'Well, here, read this. I'll tell you what I would wish. Would wish very much!' She wrote the initial letters: t, y, c, f, a, f, w, h. It meant: 'that you could forgive and forget what happened'.

He seized the chalk with his tense, trembling fingers and, breaking it, wrote the initial letters of the following: 'I have nothing to forgive and forget, I have never stopped loving you.'
Nesses dois casos fica claro que o silêncio (ou a ausência de palavras, ou a ausência da necessidade de representá-las) dá conta de um entendimento ulterior, uma união especial que prescinde de qualquer elaboração linguística para fazer-se inteligível. Ora, ocorre que o silêncio pode vir a representar algo diametralmente oposto: o reconhecimento de que não há como estabelecer qualquer tipo satisfatório de comunicação. É mais ou menos disso que Italo Calvino reclama em sua palestra Exatidão:
A linguagem me parece sempre usada de modo aproximativo, casual, descuidado, e isso me causa intolerável repúdio. Que não vejam nessa reação minha um sinal de intolerância para com o próximo: sinto um repúdio ainda maior quando me ouço a mim mesmo. Por isso procuro falar o mínimo possível, e se prefiro escrever é que, escrevendo, posso emendar cada frase tantas vezes quanto ache necessário para chegar, não digo a me sentir satisfeito com minhas palavras, mas pelo menos a eliminar as razões de insatisfação de que me posso dar conta. A literatura - quero dizer, aquela que responde a essas exigências - é a Terra Prometida em que a linguagem se torna aquilo que na verdade deveria ser.
Feliz ou infelizmente, essa constatação pode ter contornos bem mais trágicos: o que em Calvino é apenas um repúdio contra o desleixo com que é tratada a linguagem, em outras mentes mais radicais pode adquirir a forma de um ultimatum contra qualquer possibilidade de comunicação humana. É a impressão que se depreende do manjadíssimo O Grito, do norueguês Edvard Munch:

Qualquer um percebe que o 'grito' só tem seu efeito marcante exatamente porque não podemos ouvi-lo: como diria Ortega, a moeda falsa circula apoiada pela moeda verdadeira. E, nesse caso como em muitos outros, a moeda verdadeira é o silêncio.

Em se tratando do efeito contrapontístico (mesmo na acepção não-musical do termo) do silêncio, pensa-se logo em música. O silêncio pode ser empregado numa inversão repentina ou num lânguido crescendo, e não chega a admirar que tenham surgido ocasiões para utilizações mais inovadoras do herói desse post: o compositor John Cage, por exemplo, resolveu 'compor' uma piece que consiste em quatro minutos e trinta e três segundos do mais inveterado silêncio. Quando perguntaram a respeito da importância do silêncio em sua obra, Cage limitou-se a responder que Until I die there will be sounds. And they will continue following my death. As for silence, there's a countdown to its extinction. A música popular brasileira também faz uso sublime do silêncio. Por exemplo, nos intervalos entre uma e outra música.

Na primeira imagem, Harpócrates, o deus helênico do silêncio.