28 maio, 2009

A mentalidade conservadora

Se tivéssemos de aceitar os critérios que o Russell Kirk, no The Conservative Mind, estabelece pra identificar o imaginário conservador, seríamos forçados a admitir que popular o conservador não pode ser; não hoje. É certo que já houve tempos mais propícios, mas o conservador não está tão em descompasso com a realidade atual quanto gostariam seus detratores. Alguns desses últimos acreditam piamente que:

(i) O conservador não tem senso de humor;
(ii) O conservador tem uma vida social subdesenvolvida;
(iii) O conservadorismo é mais reação que ação, mais inerte que criativo;
(iv) O conservador age por instinto e é intelectualmente despreparado.

Nem seria necessário chafurdar a biografia de conservadores notórios pra verificar que o primeiro item é falso. À medida que os adágios conservadores perdem popularidade, ganha importância a maneira com que são repetidos, e o humor parece ser o artificio mais eficiente nesse processo de reinvenção. Nelson Rodrigues conseguia lamentar o hábito feminino de usar biquinis em plena luz do dia sem parecer um velho recalcado; Chesterton exaltava a coerência de um conto de fadas sem parecer infantil. Isso pode não ser engraçado, mas é bom humor.

Quanto à vida social: essa sim é uma noção engraçada, e eu não saberia explicá-la de outra forma que não a tendência natural que pessoas que pensam de maneira semelhante têm de se unir. A maioria dos meus amigos tende à direita e nem por isso bebe ou se diverte menos que o estritamente recomendável. Se você é esquerdista e acha que só esquerdistas têm capacidade de pular feito um condenado na balada, fique sabendo que o mau gosto não é privilégio de uma banda do espectro político. Os de bom gosto tampouco são reclusos: sentam num bar e ponderam quantos anjos cabem num copo de cerveja.

A primeira metade do terceiro item até faz sentido: o conservador desconfia de mudanças abruptas, o que não significa dizer que não reconheça a necessidade de mudanças. Uma desvantagem prática disso é que grandes talentos e mentes impetuosas tendem a encontrar alguma resistência no corpo conservador. A vantagem é que as mudanças, quando indispensáveis, são bem menos destrutivas quando supervisionadas por um conservador criativo. Isso nada tem a ver com inércia, como queria F. J. C. Hearnshaw -- It is commonly sufficient for practical purposes if conservatives, without saying anything, just sit and think, or even if they merely sit --, mas com conciliação de tempos incompatíveis.

O instinto, ou prejudice, realmente não costuma ser ignorado pelo bom conservador, mas daí a acreditá-lo intelectualmente pobre vai um grande salto. Um salto que, aliás, ignora as grandes inteligências que se tornaram, voluntariamente ou não, expoentes do conservadorismo: Edmund Burke, John Adams, S. T. Coleridge, J. H. Newman, Irving Babbitt, George Santayana, T. S. Eliot e o próprio Kirk. Há aqueles que enfatizam valores transcendentais (Burke, Kirk, Newman), outros que se concentram na esfera política (Adams), outros que valorizam a imaginação conservadora mais que tudo (Coleridge, Eliot) e outros que se ocupam principalmente da filosofia por trás da práxis política (Coleridge, Babbitt, Santayana). Já que parecem (e são) tão diferentes, o que os uniria a um núcluo comum? Kirk enumera alguns pontos:

(i) Belief in a transcendent order. Essa é uma condição com a qual Roger Scruton discordaria, e à qual Santayana e tantos outros expressamente não se adequam. Acontece muito de ela ser aceita numa versão adaptada, que consiste em admitir que a razão humana é insuficiente para abarcar toda a existência e que, se os mistérios não são explicáveis através de um plano divino, simplesmente não são explicáveis. Há aqui, porém, a convicção de que todo problema político é no fundo filosófico, e que todo problema filosófico é antes problema religioso.

(ii) Affection for the proliferating variety and mystery of human existence, as opposed to the narrowing uniformity, egalitarianism, and utilitarian aims of most radical systems. Aqui temos o que parece ser unanimidade entre conservadores: diferenças de mérito entre seres humanos existem e podem ser tão grandes quanto se queira imaginar. Num momento em que a tendência é uniformizar tudo (homens e mulheres, velhos e jovens, bons e maus), repetir esse truísmo conservador exige, e esse é o apelo de Kirk, a engenhosidade de uma criatividade conservadora, capaz de reabilitar obviedades rejeitadas.

(iii) Conviction that civilized society requires orders and classes, as against the notion of a "classless" society. Consequência direta de (ii): o nascimento, ou o mérito, ou o casamento, ou mais raramente a sorte, ou todos juntos, determinam que lugar na sociedade devemos ocupar. A supressão de qualquer tipo de ordem levaria -- numa objeção que é mais de ordem prática que de princípio -- ao predomínio de oligarquias, num regime em que todos são servos da igualdade.

(iv) Persuasion that freedom and property are closed link. Observação simples da realidade.

(v) Faith in prescription and distrust of "sophisters, calculators and economists". Relendo os quatro itens anteriores, percebo que não poucos dos chamados liberais ou libertários assentiriam completamente, sendo o primeiro item com muita probabilidade o mais disputado. Essa quinta condição representa outro ponto de divergência: o conservador desconfia dos sofistas mesmo quando (ou principalmente quando) ele diz ser o estandarte da ciência e da racionalidade. Os números dos melhores economistas podem ser enganosos; as abstrações de filantropos podem levar a ruínas bem concretas.

(vi) Recognition that change may not be salutary reform: hasty innovation may be a devouring conflagration, rather than a torch of progress. Society must alter, for prudent change is the means of social preservation; but a statesman must take Providence into his calculations, and a statesman's chief virtue, according to Plato and Burke, is prudence.

Se você simpatiza com os seis princípios enumerados acima e não usa tênis all-star, sinta-se bem-vindo ao clube.

17 maio, 2009

CXLIII - The Old Man and Death

An old man who had traveled a long way with a huge bundle of sticks became so weary that he threw his bundle down on the ground and called upon death to deliver him from his most miserable existence. Death came straight to his side and asked him what he wanted.

"Please, good sir," he said, "do me a favor and help me lift by burden again."

It is one thing to call for death and another to see him coming.

12 maio, 2009

Somos todos newtonianos

Se você é um daqueles que odiava física na época do ensino médio, e que deu graças aos deuses por nunca mais ter que ver pêndulos, bloquinhos suspensos com roldanas ou deslizando por cunhas depois do vestibular, digo apenas que você é tão newtoniano quanto qualquer outra pessoa viva. Termos como 'força', 'potência', 'movimento' etc. são entendidos por todos exatamente como Newton os entendia, e exatamente em oposição ao entendimento que havia antes dele.

Um exercício simples pra provar isso é tentar imaginar, da maneira mais simples possível, uma 'força'. Muitos devem imaginar uma setinha entrando ou saindo de um bloco; outros tantos devem imaginar uma pessoa ou objeto sendo empurrado. Os mais criativos podem visualizar um campo de forças, uma espécie de luminosidade que circunda um, por exemplo, super-herói, e que tem o efeito de empurrar ou atrair objetos à distância. Mas isso nada mais é que o efeito à distância, uma idéia newtoniana por excelência.

Quando falamos em 'movimento', poucos devem ser os que não pensam logo em deslocamento físico. Quando falamos em 'potência', poucos devem ser os que não pensam logo na capacidade de realizar trabalho (trabalho físico -- transformação de energia), ou mais especificamente num motor, num velocímetro ou coisas do tipo. Aristóteles não era newtoniano ao falar em primeiro 'motor' ou na capacidade de 'mover' os homens; nós que somos newtonianos ao interpretá-lo dessa maneira.

A teoria ondulatória da luz sofreu certa resistência porque os newtonianos da época acreditavam que a luz era composta por partículas que se chocavam como bolas de bilhar. A refração seria, então, uma simples mudança de velocidade dessas partículas. Só a hipótese ondulatória explica, porém, fenômenos como a difração da luz (v. figura abaixo). O que fazer para convencer-nos, os newtonianos? Pensar nas ondas do mar, que uma vez quebradas produzem 'força' e 'movimento'.

01 maio, 2009

Muito canibalismo para um só dia

Acabo de ver o The Silence of the Lambs pela primeira vez. Confesso que há cenas bem perturbadoras, tão perturbadoras que podem até comprometer o churrasco do almoço de amanhã. Se eu por acaso vislumbrar Clarice Starling tentando salvar um cordeiro (ou tentando roubar minha carne), terei como consolo o fato de estar, bem, vendo Clarice Starling. Quando já me supunha livre de canibalismos, começa a tocar Cannibal's Hymn, cujo refrão acredito ter sido escrito para a Starling:
But if you're gonna dine with them cannibals
Sooner or later, darling, you're gonna get eaten
But I'm glad you've come around
here with your animals
And your heart that is bruised but bleating
And bleeding like a lamb

25 abril, 2009

Xarope necessário

Sempre que alguém afirma, eu incluso, que é nada menos que impossível modelar o planeta terra e sair fazendo previsões de temperatura para daqui a 50 anos, aparecem os prosélitos da Ciência Infalível citando esse ou aquele estudioso dessa ou daquela renomada universidade. Não fazem a mais mínima idéia do que estão falando, mas se um professor da UFbolinha lançou um artigo a respeito é porque deve ser verdade. Uma primeira maneira de desconfiar disso tudo é visitar a página do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos, do INPE, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, aqui. Lá vocês podem ver que a probabilidade de chuva em Goiânia hoje, 25 de abril, é de 70%. Isso mesmo, colegas: os pesquisadores do INPE não sabem dizer com certeza se hoje chove em Goiânia.

Analisar a possibilidade de chuva hoje parece bem mais simples que prever a temperatura média mundial daqui a 1 ano, não? Basicamente tenho que verificar temperaturas, concentração e movimentação de nuvens e massas de ar, umidade relativa do ar etc. Muita gente hesita em duvidar da mecânica dos fluidos porque, ao que parece, as coisas funcionam perfeitamento por todos os lados: medidores de pressão, barragens, encanamentos d'água, prensas hidráulicas etc. Tampouco há o hábito de duvidar da disciplina de transferência de calor: nossos aparelhos de ar condicionado e climatizações em geral funcionam que é uma beleza. Isso porque o engenheiro é, ou deveria ser, como um cavaleiro do Zodíaco: não comete o mesmo erro duas vezes. Tudo o que pode ser empiricamente testado é cedo ou tarde absorvido; se queremos monitorar a queda de pressão numa tubulação de óleo, metemos um medidor lá e pronto. Quando se trata de fazer previsões teóricas, a situação é bem outra. Antes que me acusem de falar sem dar exemplos, como já fizeram, lá vai um (preparem-se, é a parte chata do post):

Vamos modelar o escoamento de um fluido qualquer no espaço. Aplicando a segunda lei de Newton a uma volume de controle do fluido (uma espécie de paralelepípedo imaginário que contém uma porção do fluido), e supondo que todas as forças envolvidas são ou de viscosidade, ou de diferença de pressão, ou de corpo (como a gravitacional ou a elétrica), chegamos às famosas equações de Navier-Stokes, escritas abaixo para as três direções cartesianas:




Nas equações acima, 'rô' é a densidade do fluido, suposta constante (que conveniente, não?), 'u', 'v' e 'w' são, respectivamente, as velocidades nas direções x, y e z de uma partícula qualquer do fluido, 'p' é a pressão, 'mi' é um coeficiente de viscosidade e os g's são as gravidades relativas às forças de corpo em cada direção (se quisermos considerar apenas a força gravitacional, g = 0 para x e z e g = g para y). Trata-se de um sistema de equações diferenciais parciais não-homogêneas de segunda ordem (porque tem derivadas parciais de segunda ordem e o termo independente é não-nulo). Ele deve ser resolvido juntamente com a equação da continuidade (conservação da massa) e o que importa saber é que não há solução exata para ele. Vejam que mesmo depois de várias hipóteses simplificadoras (escoamento incompressível e laminar -- a altas velocidades e com geometria propícia o escoamento torna-se turbulento e nem equações que não conseguimos resolver temos mais; ficamos soltos no campo do puramente empírico) chegamos a um sistema sem solução explicíta; podemos tentar algum método numérico, mas nem o mais moderno computador consegue resolvê-lo sem simplificações adicionais.

Apenas versões bastante simplificadas das equações de Navier-Stokes possuem solução exata. Por exemplo, como no exemplo da figura abaixo, podemos supor que o escoamento se dá apenas na direção y (ou seja, u e w são iguais a 0) e que, com escoamento pleno, a velocidade em y depende apenas de x, isto é, v = v(x). 'Aí fica fácil', diria Joãozinho. Pois é. Mas aí surgem outros problemas: as placas são infinitas? Como levar em conta a formação de vórtices nas bordas?

Nesse exemplo nem sequer falamos em temperatura. Transferência de calor por convecção é um inferno (no pun intended) e depende incertamente de valores que por si só já são difíceis de obter, como os mostrados acima. Como vocês imaginam, então, que deve ser a modelagem de correntes oceânicas ou de ar, em que nenhuma ou poucas das simplificações mencionadas aqui são aceitáveis, e para as quais não podemos contar com uma geometria bacaninha pra guiar o escoamento? E a incidência de radiação solar? E a influência das nuvens? E...

24 abril, 2009

Links

Por muito tempo tive o esquisito (e, parece, ingrato) hábito de escrever num blog sem acompanhar blogs de outras pessoas. Conheci vários recentemente e percebi que há links para o Parnaso em alguns deles. Tardou mas resolvi retornar o favor: se você me linkou e ainda não está aparecendo aqui ao lado, é só me avisar. Até.

22 abril, 2009

Eles merecem

Há uns anos, fui malhado em sala de aula por dizer que cada povo tem o governante que merece. Nem sei quem disse isso pela primeira vez; vai que é ditado popular em algum lugar, de tão antigo. Está claro que não se pode responsabilizar um bebê iraniano de poucos anos pelo enpossamento de Ahmadinejad, mas, creio, entende-se bem o que o aforisma quer dizer. Essa relação de responsabilidade pode por vezes ser bem complicada, como o crescendo de anti-semitismo europeu que deu a uma figura como Hitler taxas apreciáveis de popularidade.

Às vezes ela nada tem de complicada. Escrevo isso porque vi hoje mesmo evidência adicional para a minha declaração de há uns anos. Trata-se de exemplo único, um tijolo num muro que, porém, já vai alto. Vejam:
Hoy con alegría revolucionaria constatamos como se desarrollan en nuestra America Latina esfuerzos y cristalizan iniciativas tendientes a buscar la unidad, el progreso socio-económico y la integración Latinoamericana como: el Mercosur, ALBA, Petrocaribe, Telesur, Banco del Sur, satélite Simon Bolivar y otros proyectos de ayuda mutua, cooperación y solidaridad. América Latina despertó, está de pie y marchando por senderos libertarios y socialista después de décadas de sojuzgamiento y dominación imperialista. Las hermanas república de: Bolivia, Ecuador, Brazil, Uruguay, Cuba, Nicaragua. Paraguay y con reservas y dudas Chile, entre otros, así como algunos países del Caribe cuentan con gobiernos progresistas que han empezado el deslinde, distanciamiento e incluso ruptura respecto a las políticas neoliberales, adoptando políticas nacionalistas y populares de defensa y rescate de los recursos y riquezas naturales y de reafirmación de su soberanía, planteándose en nuestro caso particular por el comandante presidente Hugo Chávez como el denominado socialismo del siglo XXI, que comparte principios fundamentales con el socialismo clásico, en especial la idea de la supremacía del ser humano y de su trabajo sobre el capital.
O trecho acima foi escrito por um venezuelano que fez intercâmbio nos EUA junto comigo, em 2003. É meritório que tenha ao menos ido visitar a matriz do imperialismo opressor, mas é certo que não aprendeu nada. Se não me recordo mal, o sujeito não era de todo desagradável, apesar daquele entusiasmo meio bobo típico de latinos. Guardada a minha compaixão pelos venezuelanos da oposição, que obviamente não são poucos, apenas digo: eles merecem.

20 abril, 2009

E o jantar?

Aproveito o momento amargo, de derrota, para declarar minha simpatia pelo tricolor paulista. Ontem, no Morumbi, tomei o cuidado de ficar o mais distante possível da(s) torcida(s) organizada(s). Fiz bem, mas ainda tive a oportunidade de verificar como o torcedor brasileiro é ingrato: os supostos heróis do início do jogo eram os mesmos 'filhos da puta' do final.

Enquanto os mais exaltados xingavam jogadores e familiares do juiz, as mulheres, percebendo que o jogo estava perdido, batiam fotos para os filhos e discutiam sobre o que teriam para o jantar. São más torcedoras, mas priorizam o que há de realmente importante nesta vida.

17 abril, 2009

Um velho conservador

A figura de António Sousa Homem é, de longe, a que mais me diverte dentre todas as figuras divertidas que a blogosfera nos proporciona. Segundo consta, acaba de completar seus oitenta e nove anos e habita calmamente o 'eremitério' de Moledo, no coração do Minho. É visitado por irmãos e sobrinhos e, por opção bem calculada, já não pode compreendê-los tão bem. O interlocutor usual de Sousa Homem são a própria memória e as sombras que daí retira: o velho doutor Homem, seu pai; seu avô; Tio Alberto; Tia Benedita. Maria Luisa, uma sobrinha, de vez em quando aparece como que para atestar a transitoriedade dos tempos.

Sousa Homem é um resignado ('conheço esses caminhos por razões médicas, tentando aliviar os pulmões e despertar neles o desejo de continuarem a respirar'), e isso já seria suficiente pra fazer muita gente franzir o sobrolho. De fato,
Desiludi uns e diverti outros. Expliquei aos meus sobrinhos que não, que nunca tive uma adolescência revolucionária e barbuda. Há cinquenta anos eu esperava da vida o que ainda hoje acho decente esperar-se: um perfume de mimosas numa estrada do Minho. Era um conservador e sou um conservador, um hibisco que muda de folha na altura certa e que aceita a dádiva da fortuna e da metereologia.
Desiludiram-se os sobrinhos, 'que preferiam ver-me como um velho anarquista que tivesse passado o melhor tempo da sua juventude colocando bombas à porta de bancos, ou assaltando a tradição da família para que me declarasse democrata e republicano'. Desiludiram-se as irmãs, que não viram as paixões do irmão mais velho, também elas transitórias, concretizarem-se em matrimônio. Mas restaram os livros, e os contemporâneos que já partiram.

Um desses livros é o The Anatomy of Melancholy, de Robert Burn, herdado do velho doutor Homem, seu pai. Sousa Homem parece saber muito sobre a melancolia, mas não vê nisso motivo para desespero ('cada dia que acrescento à minha idade é um dia para agradecer à providência'); longe disso, entende, assim como seu pai, que os sacrifícios que somos forçados a fazer servem como bálsamo para a juventude. Eis aí a melhor resposta para bombas em portas de bancos: o encolher de ombros de quem tem uma família para cuidar.

Muitos devem achar, a exemplo de sua irmã mais nova, que Sousa Homem simplesmente se recusou a dobrar o século ('ela tem a impressão de que eu pertenço, não a este mundo, mas aos calendários que vão passando de moda -- gosto da imagem e não me ofendo), ou que, assim como o condenado de Nick Cave, he goes shuffling out of life, just to hide in death awhile. Mas Sousa Homem não se esconde em lugar nenhum, a menos que se considere o eremitério de Moledo, no coração do Minho, um esconderijo.

03 abril, 2009

Homens e mulheres tais como nasceram

Dia desses presenteei-me com dois livros da Jane Austen, Pride and Prejudice (pois é, nunca tinha lido) e Emma. Diferentemente dos últimos 5 ou 6 livros de ficção que tinha lido, dessa vez não me decepcionei. Jane Austen é a romancista predileta de Paul Johnson e recebeu elogios entusiásticos de Sir Walter Scott e Somerset Maugham, mas por muito tempo permaneci incrédulo. Antes que falem em machismo, a própria Austen explica o porquê, ao comentar, através de Emma, uma carta de Mr Martin: I can hardly imagine the young man whom I saw talking with you the other day could express himself so well, if left quite to his own powers, and yet it is not the style of a woman; no, certainly, it is too strong and concise; not diffuse enough for a woman.

Afora questões estilísticas, o alívio maior é perceber que homens e mulheres, interessantes ou não, aparecem nesses livros tais como nasceram e se criaram, não como subprodutos de uma construção ideológica. Os homens interessantes são interessantes como apenas homens poderiam ou tenderiam a ser: discretos, gentis, instruídos e corajosos. Idem para os desinteressantes: aduladores, insensíveis e deselegantes. Já as heroínas de Austen são perspicazes sem ser exageradamente atrevidas, e as figuras femininas que comandam nossa simpatia são atenciosas e singelas, quando não submissas. As que inspiram nosso descaso são, como não poderiam deixar de ser, frívolas e namoradeiras.

Deve causar certa estranheza que, apesar disso, os enredos de Austen sejam populares até hoje. Um dos motivos por que daqui a dez anos ninguém vai lembrar de Brokeback Mountain e As Horas e outros tantos filmes/livros recentes é que, neles, sempre que se quer destacar a importância de um sexo, diminui-se a do outro. Qualquer homem que se queira interessante num ambiente como o de As Horas deve ter características eminentemente femininas etc. Felizmente esse não é o tipo de homem que chamaria a atenção de Lizzy Bennet ou de Emma. Ou melhor, chamaria sim, apenas para ser justamente execrado.

06 fevereiro, 2009

Post sobre o jornalismo brasileiro

O conservador brasileiro, não sem certa razão, sempre se refere com um nojinho incontido às peripécias que enchem os jornais. Muito mais edificante falar sobre poesia, religião ou Monica Bellucci. Há aí um problema de prioridades: como disse o Pereira Coutinho numa entrevista recente, discutir detalhes teológicos no país do mensalão é como querer dançar valsa na tempestade, ou algo assim. Ouçamos o filósofo Paulo Betti: às vezes é preciso sujar as mãos.

A situação da Veja é particularmente irritante. Se existe uma revista que deve inspirar preocupação, essa revista é a Veja, que é a mais lida. E quem mais escreve nela, pelo menos nas últimas edições, é o Andre Petry: tem uma coluna e é responsável pelas matérias sobre as eleições nos EUA. Vejam as bobagens que o sujeito é capaz de escrever: O que mais provocou a simpatia mundial por Obama, conforme se lê nas pesquisas feitas em dezenas de países, é um conjunto de características para as quais Obama jamais chamou atenção porque espanta o voto do americano médio. A saber: sua negritude, sua urbanidade, seu traquejo político, sua formação acadêmica de elite.

Petry garante que formação acadêmica de elite espanta o voto do americano médio. Agora me ajudem com a contagem de presidentes americanos que frequentaram Harvard: John Adams e seu filho, John Quincy Adams; Theodore Roosevelt; Franklin Roosevelt; John Kennedy. Esses 5 são bem conhecidos; uma googlada rápida fornece o nome de mais dois, Rutherford Hayes e o próprio George W. Bush (master's degree). Em Princeton formaram-se dois, James Madison e Woodrow Wilson. Em Stanford, o engenheiro Hoover. Em Yale, Bush pai, Bush filho e Taft. Um em Goergetown, um em Duke, quatro na William & Mary College, um em Columbia, um em Dickinson, um em Williams. Traquejo político também é impopular, segundo Petry. Não faço idéia de onde ele tirou isso. Então o povo americano prefere os mais burocráticos, os mais enrolados?

Petry repete religiosamente os lugares-comuns mais batidos -- e mais desacreditados por quem se deu ao trabalho de estudar -- sobre a história dos EUA, como afirmar que o New Deal salvou a economia americana pós-29, que a administração de Harding (1921-23) foi a mais corrupta, que Nixon abusou dos poderes de presidente mais que seus antecessores, que quem se opunha ao movimento aboliciosta era necessariamente racista e por aí vai. Ao fazer um balanço do governo de W Bush, lembra displicentemente que Bush chegou dizendo que faria um governo "para unir, não para dividir", e agora entrega um país com duas guerras (Iraque e Afeganistão), um déficit monumental (já na casa do trilhão de dólares) e uma economia em frangalhos (a pior crise desde a II Guerra Mundial), como se a crise econômica fosse de responsabilidade dele e como se a decisão de entrar numa guerra não passasse de mero capricho pessoal (se perguntado, Petry provavelmente responderia que sim, que não passa de mero capricho pessoal).

Num quadro com as colunas 'O mundo pensa que... / Mas os Estados Unidos pensam que...', Petry mostra que não deveria se arriscar a falar por uma nação que ele desconhece, ou conhece apenas através do NY Times: ... o eleito merece todo o entusiasmo de que é objeto, como é natural em qualquer eleitorado do mundo. Torcem para que Obama resolva os problemas (no kidding?), mas não há nenhum sinal (nem procissão, nem comoções públicas, nem pedidos de benção) de que o julguem portador de superpoderes... É de surpreender, então, que eleitores conservadores americanos tenham inventado os epítetos the Anointed One, the Chosen One etc. para Obama -- certamente Petry não considera (mas sabe-se lá, né) desprezível a parcela conservadora do eleitorado americano.

É natural ver simplificações numa revista cujos artigos raramente ultrapassam as duas páginas; pode-se sempre falar em didatismo ou algo que o valha. Difícil de entender é que noções tão bobas -- bobas até entre setores da esquerda americana, principalmente agora que já explodiram os primeiros escandândalos da era Obama -- ocupem tanto espaço no semanário mais lido do país. Quando é na Veja o Reinaldo Azevedo não reclama...

--

O Papa Bento XVI é um “des-reformador” e como todos os conservadores, ele quer que tudo esteja igual, que não haja marolas, nem discordâncias, nem heresias. E aí comete gafes papais. O trecho é do Arnaldo Jabor. Segundo Jabor, melhor seria se o papa admitisse heresias; só assim pra evitar 'gafes papais'. Um conselheiro assim é exatamente o que o Vaticano precisava.

Interregnum

Gostaria de poder dizer que tenho um motivo nobre pra estar escrevendo pouco -- emprego novo, fundação de uma ONG pela defesa das criancinhas da Palestina ou organização de uma conferência sobre empreendedorismo social --, mas a verdade é que, sem móveis, fica desconfortável digitar por muito tempo. O pior disso tudo é que me surgem idéias geniais, originalíssimas, que escapolem convenientemente antes que apareça a disposição pra escrever. Vai então um post sobre o jornalismo brasileiro.

25 janeiro, 2009

Hold me closer, tiny dancer

Sábado passado pude ver Elton John executando ao vivo, aqui em São Paulo, algumas das músicas dele de que mais gosto (destaco Tiny Dancer, Good Bye Yellow Brick Road e Believe). O ponto alto do show -- pra mim e, acredito, pro casal que estava ao meu lado -- foi mesmo Tiny Dancer. Enquanto Elton John cantava o refrão -- hold me closer, tiny dancer... -- o casal obedecia e se abraçava ao som de uma balada que fez sucesso quando eles (e eu) não éramos nem nascidos. A voz, está claro, não é a mesma do começo dos anos 70: as notas mais altas ou desapareceram ou foram interrompidas antes que faltasse o fôlego. O mínimo que se pode dizer, porém, é que a melodia sobreviveu ao teste dos tempos. Veja a versão original da música aqui.

Outra grande satisfação foi não ter de ser empurrado de 5 em 5 segundos, apesar de estar razoavelmente perto do palco. Roqueiros mundo afora: aprendam com o exemplo de seus pais!

14 janeiro, 2009

RIP, Neuhaus


I weep, rather, for all the rest of us. As a priest, as a writer, as a public leader in so many struggles, and as a friend, no one can take his place. The fabric of life has been torn by his death, and it will not be repaired, for those of us who knew him, until that time when everything is mended and all our tears are wiped away. -- Joseph Bottum

12 janeiro, 2009

Smoking is the new gay

Depois que li esse post fiquei com vontade de dizer que smoking is the new gay. É divertido acompanhar a postura das pessoas diante de características marginais, como fumar, ser conservador, ser judeu etc. Vivemos um momento auspicioso nesse sentido: para quem nasceu no intervalo que vai do final da 2a. grande guerra até meados dos anos oitenta, anti-semitismo (deve ter perdido o hífen, mas dane-se) é absurdo inconteste até pra quem se limita a visitar o cinema nas horas vagas. O bombardeio de obras sobre o Holocausto nos ensina a encará-lo como algo inefável, coisa de maluco mesmo. Faça esse experimento: pergunte a um transeunte qualquer sobre a origem do anti-semitismo; se ele for além da ladainha sobre grandes corporações, concentração de dinheiro e financiamento de guerras, dê-se por satisfeito. Não sei se é só nas ocasiões em que a oportunidade tentadora de malhar a política externa americana aparece (na cabeça dessa gente, EUA = Israel) ou se é algo mais geral, mas até essa aversão instintiva ao anti-semitismo parece estar desaparecendo. Isso mesmo: o governo brasileiro já pode equiparar judeus e nazistas e passar incólume, sem que judeus sovinas saiam cobrando dívidas em carne humana por aí.

Segundo nos conta Hannah Arendt, houve um tempo em que não havia nada mais charmoso que ser judeu -- evidentemente, antes de eles serem de fato odiados. Compreende-se bem: é o charme do diferente, da minoria, do excêntrico. O próprio Disraeli, também ele judeu, teria (ainda não tenho opinião formada sobre ele) contribuído com a pantomima. Pois bem: smoking is the new gay, e isso significa despertar um conjunto amplo mas não ilimitado de reações, a depender do momento histórico, assim como acontece com o gay ou com o conservador. O conservador desperta incredulidade no Brasil de hoje; já nas plantations da Virginia do início do séc. 19, era só mais um. O gay nessas mesmas plantations era um pária; hoje é acolhido e festejado em toda parte, assim como o escravo de ontem é hoje recebido no ensino superior a despeito de seu mérito intelectual. Fico me perguntando, assim como Romerito José inquiria Sto. Agostinho, se chegará a época em que fumantes e conservadores (ou judeus, uma vez mais) serão mandados para o forno, isto é, se tudo muda o tempo todo.

Se não muda, podemos estar certos de que não é graças à constatação, a qual todos os homens chegariam independentemente, de que existem valores atemporais. Alguns poucos chegam a essa constatação e nos fazem o favor, na medida de seus talentos, de incuti-las no imaginário popular. Forçoso é dizer: guiamo-nos por preconceitos bem mais do que estamos dispostos a reconhecer (e vejam que desastre se assim não fosse, se tívessemos de esperar que cada um formasse sua idéia sobre cada bloco civilizacional). Coleridge dizia, e sabemos por experiência, que nem nas classes mais privilegiadas da mais grandiosa civilização seria razoável encontrar mais que alguns poucos dedicados à especulação filosófica. O otimismo dos philosophes parece particularmente ingênuo numa época em que até aritmética básica aterroriza muitos ditos letrados. Os raros momentos em que o homem consegue erguer-se um pouco pra observar sua condição miserável certamente não são obra da tão alardeada Razão. No dizer de Disraeli (de novo ele), It was not Reason that besieged Troy; it was not Reason that sent forth the Saracen from the Desert to conquer the world; that inspired the Crusades; that instituted the Monastic orders; it was not Reason that produced the Jesuits.

O triunfo da imaginação sobre a razão fica evidente se repassamos as idéias que ressoam com mais intensidade entre as intelligentsias: a visão apocalíptica de Marx, os sonhos de Freud, o caos de Derrida. Todas elas têm um quê de inebriante e difuso e, apesar de procurarem se apresentar como flores da racionalidade, são só isso: visões. Visões que dependem de uma imaginação muito poderosa pra fazê-las sobreviver a despeito da e muitas vezes em oposição à racionalidade que dizem representar. Mais que pesquisas científicas desacreditando os males que o fumo causa à saúde, a turma dos fumantes precisa de alguém que nos lembre por que houve um tempo em que era fashionable fumar.

28 dezembro, 2008

Por um Natal sem direitos

Natal e os chamados direitos humanos aparecem com frequência na mesma frase: todos têm direito a um Natal feliz, sem fome, sem frio etc. Fiquei pensando: por quanto tempo a humanidade pôde passar o Natal sem ouvir falar em direitos humanos? A Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU, é de 1948. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, dos facinorosos franceses, é de 1789. A Declaração de Independência dos EUA é de 1776 e a Carta de Direitos inglesa é de 1689. Acho que não seria exagero concluir, então, que por pelo menos 1500 anos (dC) a idéia de que o ser humano já nasce com direito a isso ou àquilo soaria estranha aos ouvidos mais benevolentes. E, nada obstante, foi nesse período que inventaram o hospital e a universidade pública.

Acho que poucas coisas comprometem mais a felicidade que o pretenso direito à felicidade. Se me aparecem com um papel garantindo o meu direito à felicidade irrestrita, qualquer existência aquém de um paraíso na Terra vai me parecer uma tremenda usurpação. Os americanos foram mais modestos (e mais felizes) ao garantir apenas o direito à procura da felicidade, que aliás pode ser tão medonha quanto se queira.

A mania de garantir direitos a torto e a direito cairia por terra se se dessem ao trabalho de analisar o problema pelo outro lado, o dos deveres. Se eu tenho direito à felicidade, alguem tem o dever de concretizá-la e, fora o meu anjo da guarda, nunca ouvi falar de semelhante cargo. Pior que a impraticabilidade da idéia são as doses cavalares de ressentimento que ela inspira, o ressentimento que Nietzsche quis imputar justamente àqueles que se opunham a ela, os que inventaram a caridade não por dever (no sentido legal), mas por princípio.

Desejo um bom Natal a todos: não que vocês tenham direito a um bom Natal, mas porque desejo que assim seja.

18 dezembro, 2008

Ainda o Cristaldo ou A compartimentalização da inteligência

O Janer Cristaldo chega a níveis de idiotia que eu mesmo julgava improváveis. Ele se refere ao Reinaldo Azevedo como 'recórter tucanopapista hidrófobo' desde a polêmica da tradução do texto papal sobre a condição do divorciado dentro da Igreja Católica. A birra dessa vez (procure os textos no blog, aqui) é com um texto que Azevedo escreveu, para a última Veja, 'tecendo loas ao stalinista' Graciliano Ramos.

Confundir vida e obra de um autor é suficientemente constrangedor até pra quem não se diz jornalista. Cristaldo não é burro a esse ponto, e quem já leu dois ou três de seus textos (os que não tratam de religião!) sabe disso. Mas, alas, quando ele deixa de tratar de política e passa a tratar de religião, é como se Pelé deixasse de jogar pra comentar futebol, ou como se Stephen Hawking deixasse a física de lado pra bater uma bola (não que Cristaldo seja tão bom cronista político assim; o que vale é o contraste). Até aí nada de muito estranho; poderíamos supor bloqueio mental ou algo do tipo. O problema é que, quando se trata de religião, o bloqueio mental é generalizado.

Mas e daí?, esses últimos posts são sobre Graciliano Ramos, não sobre religião. Ocorre que o Cristaldo não consegue mais deixar o Azevedo em paz depois que o Azevedo defendeu o papa. Reitero: não fosse o fatídico episódio papal, Cristaldo continuaria mantendo o silêncio de sempre em relação ao colunista de Veja.

A compartimentalização da inteligência (alguém já deve ter inventado um termo melhor pra isso) é a capacidade que alguns têm de alocar zero de inteligência pra algumas áreas do conhecimento. Especialização não é bem sinônimo porque o especialista não precisar ignorar o complementar de sua especialização. Também não se trata de inépcia congênita: ninguém ficaria irritado com um sujeito que nasceu com péssimo senso de orientação, péssima visão espacial ou dificuldade pra decorar regras de ortografia; lida-se com essas dificuldades desapaixonadamente, como quem fecha um buraco num muro ou uma cárie num dente.

Por outro lado, que fazer de alguém que discorre razoavelmente sobre história e/ou política e/ou economia e/ou filosofia e desata a repetir asneiras quando o assunto é religião? Não são áreas tão desconexas assim; o bloqueio mental é antes psicológico que congênito. Pode ser também um preconceito elevado a teoria, um grão de ignorância que se aloja desgraçadamente no cérebro do indivíduo e que é pouco a pouco recoberto por camadas de desinformação, obtusidade e arrogância até se tornar um tumor purulento e malcheiroso. A imagem é nojenta: a realidade retratada também.

16 dezembro, 2008

Nota adicional sobre Capitu

Diogo Mainardi fala da série Capitu em sua última coluna. Alguns trechos:
Nada nele recorda o "Dom Casmurro" de Machado de Assis, apesar de reproduzir diálogos do romance. Na série, Bentinho aparece estranhamente caracterizado como Dick Vigarista, do desenho animado Corrida Maluca: nas roupas, no bigode, na magreza, no temperamento e, acima de tudo, na canastrice do ator que desempenha seu papel. Qual é o melhor candidato a Muttley? O agregado José Dias. (...) A série Capitu tem um aspecto circense. É Machado de Assis encenado por Orlando Orfei. É Bentinho imitando Arrelia no picadeiro de Fausto Silva: "Como vai, como vai, vai, vai? Eu vou bem, muito bem, bem, bem". Luiz Fernando Carvalho usa uma linguagem grotesca, afetada, espalhafatosa, cheia de contorcionismos e de malabarismos.
A coisa é mesmo heterodoxa. Mainardi esqueceu de mencionar que deram um jeito de enfiar versões de músicas do Pink Floyd e do Black Sabbath (!) na trilha sonora, que o cabelo do Bentinho jovem tem estatura digna de um black power, nada obstante ele ser branco e seminarista, e que o sujeito que interpreta José Dias, logo o alinhadíssimo José Dias, tem um jeito marcadamente afeminado. Vi tudo isso num só episódio.

Eu chutaria que a racionalização da patifaria como um todo é a dificuldade de adaptar obras do Machado. O brasileiro tende a associar criatividade e festa intimamente; se uma obra é mesmo muito criativa e sobrevive aos tempos, é necessário uma adaptação que desmonte todos os padrões cênicos usuais, de preferência com muita dança, algazarra e cores espalhafatosas. No episódio que vi, Escobar não parava de dançar. O que significa isso?

Parece que é ou isso ou adaptações mornas, como as que fizeram do Memórias Póstumas e do Primo Basílio. Todos querem um pouco da glória da pouca literatura em língua portuguesa que deu certo, mas boa inspiração apenas não opera milagres. Talvez precisemos de um temperamento um pouco menos brasileiro.

14 dezembro, 2008

Finalmente a Economia

Reparei outro dia que nunca escrevi sobre a economia chamada real. Segundo consta, a economia real trata não de abstrações generalizantes, sistemas de idéias etc., mas dos resultados que afetam a vida do cidadão comum. A princípio a distinção parece meio absurda: um sistema de idéias, caso aceito e implementado, é exatamente o que vai cedo ou tarde afetar a vida do cidadão comum. Outros restringem o termo mais ainda, dando a entender que economia real trata apenas das operações econômicas mais básicas, como compra de roupas e/ou alimentados, excluíndo entidades mais complexas (bancos, governos) e suas atividades. Vou usar o termo como sinônimo de práxis econômica, aquilo que os agentes econômicos (incluo bancos etc.) efetivamente fazem, a despeito das idéias que julgam ou dizem seguir -- nos casos em que julgam ou dizem seguir alguma idéia.

Só fui me dar conta da utilidade dessa distinção muito recentemente. Aconteceu quando começaram a me perguntar se quem trabalha em banco necessariamente venera Hayek e Friedman, se é costume colocar bustos de von Mises ou de Adam Smith nas salas de reuniões e por aí vai. 'Eles preferem a escola austríaca ou a de Chicago?' Às primeiras perguntas, respondo sempre que não, que o pessoal prefere o Benjamin Franklin, mas só porque ele aparece na cédula de 100 dólares. À última, respondo que nenhuma das duas, não por haver objeções palpáveis, mas porque ninguém se deu ao trabalho de conhecê-las direito. São esquerdistas, então? Também não, apenas não se preocupam com a economia que não é a real (a escolha do termo é particularmente feliz porque a economia que não é a real é tratada como irreal mesmo, tema para conversa em botecos ou para contos de fadas).

Acho que nada é menos conclusivo em termos de posicionamento no espectro político do que questões puramente econômicas. Ou melhor: nada deveria ser menos conclusivo. Isso porque economia pode até não se resumir a matemática (a inclusão de fatores psicológicos, porém, vai por sua conta e risco), mas os números num balanço ou num fluxo de caixa são tão números quanto os que vão numa hipotenusa ou num polinômio. O que quero dizer, se ainda não ficou claro, é: quando os números estão ruins e existe inteligência e disposição, dá-se um jeito, seja você um rothbardiano, keynesiano ou stalinista. Se o stalinista executa alguns dissidentes no processo e dá um jeito de coletar pra si mesmo todos os benefícios já é outra história. Aos que acham que simplifico a coisa indevidamente, basta lembrar que von Mises provou a impraticabilidade do sistema de precificação socialista com argumentos puramente matemáticos: caso fosse possível (nao é) escrever todas as equações diferenciais que regem o preço de uma banana, não seria possível resolvê-las, nem com os supercomputadores de hoje. Daí que não se possa estabelecer o preço do que quer que seja sem transformar a economia num jogo de cartas marcadas (para beneficiar nós sabemos quem).

O parágrafo anterior deve ser suficiente pra explicar o meu desinteresse pela economia dita real. A problemática sempre me pareceu operacional demais (ainda que complexa demais, como de fato é) pra que me fosse possível fazer algum comentário além do óbvio ululante. Se a crise secou o crédito interbancário, seca também o crédito para as empresas que tomam recursos dos bancos. O banco deixa de emprestar não porque o CFO é rothbardiano, keynesiano ou stalinista, mas porque não tem outra opção (a menos que esteja disposto a quebrar).

Não estou em condições de julgar se a distância entre as esferas da economia (a real e a 'irreal') é benéfica ou não para o universo daqueles que apenas querem ganhar a vida no mercado. O que me parece claro é que ela explica pelo menos em parte a completa estupefação diante da crise daqueles que em tese estão na posição de explicá-la*. Se a economia é, ou deveria ser, inútil para nos posicionar em qualquer tipo de espectro ideológico, ela, ou a clivagem que existe dentro dela, serve ao menos pra ilustrar a nossa tendência de achar que idéias não têm consequências (foi preciso que alguém escrevesse um livro com esse nome, for Christ's sake). Não vejo abuso de terminologia em associar a crença de que idéias têm consequências ao conservadorismo, mais precisamente à convicção de que o papel impresso tem outra serventia que não a monetária.

* Conversando com o sócio de uma empresa de gestão financeira, ainda outro dia, tive a felicidade de descobrir que o 'modelo do Estado não-invervencionista caiu por terra com essa crise'. Como um modelo que está fora de vigência há quase um século pôde cair por terra agora é matéria a ser decifrada por sábios de uma geração vindoura.

11 dezembro, 2008

Machado de Assis, um Brasileiro

Eu andava com idéias de escrever sobre o mau português que se fala no Brasil quando chegou até mim uma entrevista que o Napoleão Mendes de Almeida, o afamado gramático, concedeu à Veja em 1993 (leia aqui). Nela ele diz que a TV talvez seja o maior difusor do português torto que conhecemos tão bem. Fato é que, hoje, a TV já não pode fazer muita coisa: falar em português correto é mais constrangedor que gaguejar ou lançar generosos perdigotos por aí.

Vi ontem um episódio da série Capitu, baseada no Dom Casmurro de Machado. Os diálogos simplesmente não soam naturais, assim como não soam naturais os diálogos de todas as outras obras baseadas em livros do Machado, ou em qualquer outro livro da época. Todas essas adaptações estão fadadas ao fracasso imediato porque o brasileiro admite como absurda a possibilidade de ouvir um discurso com pronomes devidamente posicionados. Mas e daí, fazer o quê? A culpa é dos atores que se esforçaram (imagina-se o quanto) pra decorar as linhas?

O problema é que o abismo entre o português falado e o escrito é, mesmo hoje, intransponível. Tome o mais idiota dos adolescentes norte-americanos e ficará claro que o inglês falado (incluindo os usuais abusos: like, you know...) não está tão distante do inglês acadêmico. A estrutura das frases ao menos é a mesma; os solecismos mais comuns, os de ortografia, são obviamente imperceptíveis na linguagem oral. Já ao falante brasileiro ficam proibidas construções tão banais quanto 'eu a vi' ou 'segurei-lhe a mão', sob pena de um olhar mais ou menos enviesado.

Enquanto no inglês identifica-se a linguagem formal principalmente pela riqueza vocabular e pela correção ortográfica, identifica-se o mesmo em português por construções meramente corretas. Mesóclise, então, nem pensar, apesar de ser bem sabido que ela é às vezes insubstituível (não fosse, gente como Graciliano Ramos não a usaria). Regência correta de termos menos recorrentes já é luxo descabido, demonstração quase certa de arrogância.

E é assim que os personagens de nosso maior escritor (quando aparecem fora de seus livros) não nos parecem apenas diferentes, como seria natural esperar de gente que morreu há mais de um século, e que é como os personagens de Dickens ou Conrad devem parecer ao inglês hodierno. Eles nem sequer parecem brasileiros e, se realmente o foram, o certo é que há uma grande catástrofe nos separando.