22 outubro, 2006

Rousseau ou A Criança Mimada

O volume Intellectuals do historiador, jornalista, ex-pintor etc. britânico Paul Johnson reúne esboços biográficos das figuras pivotais da intelectualidade ocidental a partir do século 18. O livro tem por objetivo investigar o lado mais íntimo desses que se arvoraram à posição de líderes espirituais e de reformadores da ética e da moral. Johnson observa que, com o declínio generalizado das instituições religiosas no século 18, surge a figura do intelectual secular: aquele que supõe encontrar em si mesmo todos os pressupostos necessários para servir de mentor da humanidade. Essa liderança extravasa os limites do meramente intelectual; envereda também pelos caminhos tortuosos do comportamento íntimo. Cumpre saber, então, se esses novos gurus têm credibilidade para tanto.

O primeiro capítulo é dedicado a ninguém menos que Jean-Jacques Rousseau, o queridinho oficial do Iluminismo europeu. A sequência de depoimentos perturbadores acerca de Rousseau é tão massiva que o leitor não pode deixar de se perguntar por que diabos ainda se discute seus escritos políticos (todos eles tingidos de um proto-socialismo que hoje em dia não ilude nem pastores de ovelhas), quando seria bem mais interessante e recompensador ater-se a seu comportamento privado.

Rousseau acreditava ser a própria encarnação da generosidade, da ética e das boas maneiras. Sendo isso uma verdade que todos deveriam forçosamente aceitar, algo conhecido a priori, ele se sentia à vontade para afirmar que I have things in my heart which absolve me from being good-mannered. Essa petulância toda não poderia ter outro desfecho que não querelas intermináveis com quem quer que lhe disputasse a posição de guardião da verdade. Johnson observa que
He quarreled, ferociously and usually permanently, with virtually everyone with whom he had close dealings, and especially those who befriended him; and it is impossible to study the painful and repetitive tale of these rows without reaching the conclusion that he was a mentally sick man.
A sugestão de um desequilíbrio mental causa certo estranhamento a princípio, mas só a princípio. Todas as características de uma mente perturbada vão sendo cuidadosamente reveladas, incluída entre elas a velha mania de perseguição. Acompanhemos o que dizia Rousseau sobre seus supostos perseguidores (uma trama internacional na qual qualquer um poderia estar envolvido):
They will build me an impenetrable edifice of darkness. They will bury me alive in a coffin... If I travel, everything will be prearranged to control me wherever I go. The word will be given to passengers, coachmen, innkeepers... Such horror of me will be spread on my road that at each step I take, at everything I see, my heart will be lacerated.
Da mesma maneira podemos interpretar sua obsessão com a própria saúde que, de resto, era bem melhor do que fazia crer. Rousseau via a si mesmo como um órfão indefeso (é certo que perdeu a mãe muito cedo, mas suas relações com o pai não eram das mais amistosas), enviado ao mundo para nos livrar da influência putrefata do dinheiro e da ganância, e que por isso mesmo não deveria nem poderia ser contrariado. Esse alto ideal só poderia ser atingido com uma submissão completa do homem frente ao Estado, que cuidaria de nossos interesses mais 'sórdidos'. Esses laivos autoritários (e totalitários) não são menos pronunciados em seu discurso pessoal. Ao tentar se esquivar das muitas acusasões que lhe eram imputadas, teve tranqulidade suficiente para dizer que
I have said the truth. If anyone knows facts contrary to what I have just said, even if they were proved a thousand times, they are lies and impostures... [whoever] examines with his own eyes my nature, my character, morals, inclinations, pleasures, habits, and can believe me to be a dishonest man, is himself a man who deserves to be strangled.
Semelhante imprecação nos força a entrever o que esse homem seria capaz de aprontar na eventualidade de ser alçado ao poder por um regime revolucionário. Esse comportamento tipicamente infantil, infelizmente, não era só palavrório. Sua incapacidade de manter compromissos e de assumir qualquer tipo de responsabilidade o levou a abandonar todos os seus cinco filhos num orfanato cujo índice de mortandade era sabidamente (inclusive por ele mesmo) altíssimo.

O egoísmo e a mania de grandeza que lhe eram característicos poderiam ter sido fatais se não fosse seu talento como orador, polemista e escritor popular. Esses traços tão detestáveis de seu caráter, que de ordinário serviriam para decretar seu fracasso enquanto figura pública, acabaram sendo ratificados e exacerbados pelos aduladores de plantão e pelos endinheirados que, envergonhados com sua própria superioridade financeira, sentiam a necessidade de apadrinhar o primeiro 'intelectual' que lhes aparecesse. Daí que Jean-Jacques Rousseau, que não mereceria ser mentor intelectual nem da lavanderia lá de casa, tenha se transformado nessa figura monstruosamente influente e hipnótica.

14 outubro, 2006

The Second Coming


Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep
Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?

- William Butler Yeats (1865-1939)

13 outubro, 2006

A Memória de Ortega y Gasset

El verdadero tesoro del hombre es el tesoro de sus errores, la larga experiencia vital decantada gota a gota en milenios. Por eso Nietzsche define al hombre superior como el ser de "la más larga memoria".
A definição dada por Ortega y Gasset, em seu La Rebelión de las Masas, ao termo massa ou, mais especificamente, ao homem-massa, sempre foi tema de muita discussão. Como se já não bastasse a novidade do fenômeno propriamente dito (a rebelião das ditas massas), há sempre uma certa dificuldade em precisar se este ou aquele indivíduo é também um homem-massa. Pergunta que caberia ao leitor: "serei eu, também, um homem-massa?"

O trecho epigrafado, retirado do Prólogo para franceses, parece permitir uma decisão mais rápida. O homem-massa de Ortega é o oposto do homem superior de Nietzshe; não se trata, pois, de uma distinção calcada em classes sociais, mas sim numa violenta falta de memória. O homem-massa pode ser motorisa de ônibus, torneiro mecânico, cardiologista ou físico de plasmas. Ele pode contribuir para o avanço mesmo do que há de mais abstruso e inacessível na tecnologia de ponta. Em que consiste, então, o cientista desmemoriado?

Antes mesmo de saber precisamente o que essa 'amnésia' significa, cabe notar que a definição de homem-massa, tal como vista até aqui, já impede que se fale em decadência assim como queria Spengler. O homem-massa de Ortega chega à civilização em que está inserido como o bebê chega ao mundo: nos primeiros momentos, o menor detalhe já é motivo para alumbramento; quando não lhe satisfazem as exigências, põe-se a chorar freneticamente; quando decide agir, fá-lo atabalhoadamente e com violência, sem evitar perigos conhecedíssimos e outros tantos que poderiam ser inferidos. Daí a propensão natural do homem-massa à revolução, à rebelião. Quem desconhece o que lhe antecedeu não tem por que ser escrupuloso no ato de destruí-lo.

Fica claro daí que o que se propõe não é um declínio, processo esse que, por mais degenerativo e incaracterístico que seja, mantém-se sempre ligado, como num contínuo, a tudo quanto veio antes, incluído aí o auge mesmo da cultura ou civilização em questão. O homem-massa, por outro lado, promove uma ruptura radical e irremediável; ele está só no mundo como um primitivo, alheio a qualquer tipo de tradição.

Se a perspectiva de uma sociedade dominada pelas tais massas deve necessariamente incluir um total desapreço pelas culturas anteriores, no âmbito individual esse desprezo pelo passado se transforma num desprezo pelo vizinho. Note-se que o homem-massa, tendo relegado o que lhe antecedeu a um plano de menor importância, interpretará o prestígio que porventura lhe for concedido como uma autorização para extravasar sua autoridade específica (a esta altura bastante limitada) e invadir arrogantemente a dos outros. A resposta que o homem-massa encontra em si mesmo já é mais que suficiente; não se lhe afigura necessário consultar quem quer que seja: fazê-lo seria sinal de subserviência, de uma muito detestada servidão. É exatamente o contrário do que se encontra na noção que Ortega tem de nobreza:
No le sabe su vida si no la hace consistir en servicio a algo trascendente. Por eso no estima como una opresión la necesidad de servir. Cuando esta, por azar, le falta, siente desasosiego y inventa nuevas normas más difíciles, más exigentes, que le opriman. Esto es la vida como disciplina - la vida noble. La nobleza se define por la exigencia, por las obligaciones, no por los derechos.
Reparem que só citei definições negativas do homem-massa - o que ele não é. Por mais extensiva que seja a descrição que Ortega faz do homem-massa, essa parece ser a maneira mais fácil de identificá-lo num texto curto: opondo a sua memória à do Ortega, opondo ele mesmo ao homem superior de Nietzsche, opondo sua 'liberdade' à 'servidão' dos nobres.

01 outubro, 2006

Adendo

Estava eu lendo o The Decline of the West, do Oswald Spengler (de que falarei num dos próximos posts), quando encontrei a seguinte passagem, que serve de adendo ou confirmação ao que se disse no post sobre indução:
Nature-laws are forms of the known in which an aggregate of individual cases are brought together as a unit of higher degree. Living Time is ignored - that is, it does not matter whether, when or how often the case arises, for the question is not of chronological sequence but of mathematical consequence. But in the consciousness that no power in the world can shake this calculation lies our will to command over Nature. That is Faustian. It is only from this standpoint that miracles appear as breaches of the laws of Nature. Magian man saw in them merely the exercise of a power that was not common to all, not in any way a contradiction of the laws of Nature. And Classical man, according to Protagoras, was only the measure and not the creator of things - a view that unconsciously forgoes all conquest of Nature through the discovery and application of laws.

29 setembro, 2006

O Exército do Diabo

Janer Cristaldo, articulista do Mídia sem Máscara, tem sido alertado até pelo próprio Olavo de Carvalho quanto à sandice de seus últimos textos sobre religião. Ocorre que Cristaldo ainda está entusiasmado por ter, lá pelos confins de sua puberdade, rompido com a religiosidade que o circundava. Esbravejou um corajoso não às freirinhas do colégio. Esse conflito tipicamente juvenil está longe de ser incomum e já serviu de mote para alguns bons romances, com a ressalva de que todos eles retrataram-no quando de sua origem. O Portrait of the Artist as a Young Man já se revela pelo título: que ridículo não seria se, em vez do rapazote Dedalus, surgisse a figura de um ancião rememorando e exaltando as rebeldias de um passado longínquo? Certas verdades só servem para quem as descobriu.

Em um de seus últimos delírios, Cristaldo pretende mostrar que comunistas não são ateus. Argumenta que apenas trocaram o deus cristão pela História, pelo marxismo ou por qualquer outra baboseira análoga. Aí está, recém-saída do forno, fruto de uma ligeira e quase imperceptível troca, uma nova religião: formalmente comparável à cristã, apesar de sua gênese não passar de um exercício de terminologia. Cristaldo cita Camus e Kazantzakis como prova cabal de que o que houve na União Soviética foi realmente culto religioso. O que realmente surpreende, tanto nos comunistas como em Cristaldo, é a facilidade com que se desvencilham desse estorvo chamado cristianismo, como se fosse um par de sapatos passível de troca a depender da conveniência.

Numa tentativa meio desesperada de livrar a cara dos ateus, Cristaldo acaba fazendo pior: transfere boa parte da culpa aos cristãos. Sigamos sua lógica: se os comunistas, logo eles, engendraram um modelo de adoração perfeitamente semelhante ao cristão, algo de podre e condenável deve haver nesse modelo. E vai além:
Par contre, pergunte-se a qualquer um dos políticos que se beneficiaram de mensalões, propinas, esquema de sanguessugas, caixa 2, nepotismo, tráfico de influência ou tráfico de drogas, se ele acredita em Deus. Todos eles dirão que sim, pois não há no Brasil político que não acredite em Deus.
Seria o caso de perguntar: e daí? Na esperança de mostrar que nem todo ateu é moralmente desleixado, chega à obviedade, conhecida por qualquer torneiro mecânico, de que nem todo cristão é exatamente o supra-sumo da moralidade. Aprendemos do trecho abaixo, do conto a Igreja do Diabo de Machado de Assis, que há muitos modos de afirmar; a negação, porém, seja ela direta ou através da divinização de um embuste, é única:
Vá, pois, uma igreja, concluiu ele [o Diabo]. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.
Leiam o texto do Cristaldo aqui.

27 setembro, 2006

O Problema da Indução

O Princípio da Indução Finita (PIF) é um artifício comumente empregado quando se quer demonstrar um resultado previamente conhecido. É um procedimento que, mesmo restrito à matemática, causa certa estranheza aos não-iniciados. Prova-se uma propriedade por indução quando essa propriedade é válida para o caso inicial (n = 1) e quando a suposição de que é também válida para um caso genérico (n = k) nos leva à validade do caso seguinte (n = k + 1). Se k = 1, a validade do primeiro caso (que é verificável ou dado) nos leva à validade do segundo. A partir do segundo chegamos ao terceiro, e assim por diante. Exemplo: quer-se mostrar por indução a seguinte identidade: ln(an) = n . ln(a).

(i) A identidade é verdadeira para n = 1 pois está claro que ln(a1) = ln(a) = 1 . ln(a).

(ii) Suponhamos que ela é verdadeira para n = k, isto é: ln(ak) = k . ln(a).

(iii) Vejamos o que acontece com o caso seguinte, partindo do lado esquerdo da igualdade: ln(ak+1) = ln(ak . a) = ln(ak) + ln(a) = k . ln(a) + 1 . ln(a) = (k + 1) . ln(a).

Usamos apenas a propriedade do produto de logaritmandos [ ln(a . b) = ln(a) + ln(b) ] e a suposição enunciada em (ii). Chega-se, assim, à conclusão de que a identidade é válida para qualquer n. Até aqui, tudo muito simples e intuitivo. Começam a surgir problemas quando se quer estender essa noção indutiva à filosofia. A conexão parece óbvia: se a força gravitacional funcionou hoje, ontem e sempre, funcionará também amanhã. Ocorre que esse raciocínio não resiste nem à análise puramente matemática da coisa. Provemos, por indução, que a gravidade funcionará amanhã. O caso inicial é verdadeiro, já que percebo claramente que ela está a funcionar hoje. Suponhamos o mesmo para um dia genérico k. O que me permite concluir que ela estará intacta no dia k + 1? Nada. Quando muito, a probabilidade, mas nesse caso já teríamos deixado há muito o campo rigoroso da demonstração analítica.

O tratamento que Karl Popper dá à idéia de ciência reflete exatamente essa rejeição ao inducionismo. Só poderá ser ciência aquilo que admitir sua própria falibilidade. Não deixa de ser curioso que a mente científica, indissoluvelmente associada à busca da verdade, seja assim pautada pela possibilidade mesma da ausência de verdade; pelo engano, pela 'mentira'. Nesse sentido, a física corpuscular de Newton é genuinamente científica porque resguardou a possibilidade de sua própria 'destuição': enunciou arbitrariamente coisas que mais tarde se revelariam falsas ou apenas parcialmente verdadeiras. A contribuição de Einstein não é menos científica: parte do pressuposto, questionabilíssimo, de que a velocidade da luz independe do referencial tomado, além de valer, no máximo, aproximadamente 3.108 m/s. Toda a Relatividade está construída em cima disso.

Essa confusão entre inducionismo e ciência pode levar a erros constrangedores. O comentário que Gustavo Corção faz sobre uma tese de Euryalo Cannabrava é bem ilustrativo:
Um curioso exemplo da falta de precisão científica em que incide certa espécie de filosofia cientificista, pode ser colhido na página setenta e quatro da tese que o Sr. Euryalo Cannabrava apresentou no seu concurso. Depois de muitas considerações tortuosas sobre a diferença que existe entre a linguagem científica e a linguagem poética, diz ele o seguinte:

"Cabe aqui perguntar se a frase "L'Amore que muove il sole e l'altre stelle" poderá ser considerada uma proposição. A fim de responder a essa pergunta, é necessário resolver preliminarmente se o seu enunciado será falso ou verdadeiro. Sob o ponto de vista da linguagem científica "L'Amore que muove il sole e l'altre stelle" se considera falso. o que move o sol e as estrelas não é o amor, mas o que está expresso na lei de Kepler, de acordo com a qual os astros descrevem, na sua órbita, uma elipse de que o sol ocupa um dos focos."

Diz o autor que não é o amor que move o sol e as estrelas, é o que está expresso na lei de Kepler. Ora, essa proposição, apesar das aparência, é muito menos científica do que o verso de Dante. Essa proposição é falsa. As leis de Kepler exprimem apenas como se movem os astros e não o que os move. Quando o grande astrônomo enuncia que os planetas descrevem elipses em que os quadrados dos tempos de revolução são proporcionais aos cubos dos eixos maiores, a causa eficiente, aquilo que move, não entra de modo algum em seu enunciado. E basta esse pequeno detalhe para me autorizar a dizer que a frase "o que move o sol e as estrelas é o que está expresso na lei de Kepler..." seria admissível na boca de um desprevenido bombeiro hidráulico que acabasse de ler o último número de Seleções, mas é imperdoável na tese de um candidato à cátedra de filosofia. Essa frase revela um irrecuperável escript de lourdeur, uma absoluta ausência de precisão cientifica, e sobretudo uma total incapacidade filosófica.

Se o autor daquela frase tivesse dito "leis de Newton" em lugar de leis de Kepler, o erro de sua proposição seria menos aparente, porque aquelas leis, embora ainda sejam expressões de modalidade, incluem uma referência à causa próxima da interação dos corpos celestes. Os corpos se atraem na proporção direta das massas e na inversa do quadrado das distâncias. Cinqüenta anos depois do grande Kepler, o imenso Newton virá dar maior unidade à mecânica celeste. Mas ainda não se pode dizer com propriedade que o que move o sol e as estrelas é o que está expresso na equação de Newton. A gravitação universal é um fato físico, e a lei de Newton descreve como agem os corpos dentro dessa realidade física que em si mesma é distinta dos símbolos matemáticos. A realidade das causas mais profundas que movem os astros escapa ao tratamento matemático e pertence ao domínio propriamente filosófico pelo qual o Sr. Cannabrava nutre tamanha aversão. Posso convir que uma pessoa seja agnóstica e que leve seu positivismo até o ponto de se desinteressar pelas causas profundas. Neste caso, porém, deve dizer: eu não sei o que é que move os astros, só sei que eles se movem assim...
As 'leis' de Kepler, louváveis como são, representam um exercício de simples inducionismo: um exercício de encontrar um modelo que esteja de acordo com as observações experimentais, ainda que não se tenha idéia da causa física por trás do modelo. A descrição de Newton vai além porque insere elementos fisicamente palpáveis (massa, distância), e é nesse sentido que se pode dizer que as leis de Newton 'demonstram' as leis de Kepler. Mas, se as leis de Kepler são realmente leis, por que precisam de demonstração? O termo é evidentemente inadequado para o caso de Kepler, mas não é tão simples perceber que tampouco serve para o de Newton. Culpem o inducionismo.

24 setembro, 2006

Bola na Vidraça ou Comfortably Numb

Quem já leu Turma da Mônica lembrará as várias ocasiões em que Cascão & colegas, jogando futebol, quebraram a vidraça de alguém. Lembrarão também um particular que hoje se nos afigura chocante: ficavam todos aterrorizados com a espera de um castigo que certamente viria. A Turma da Mônica é o último baluarte da moralidade no Brasil: os culpados costumam ser punidos. Quando o Franjinha bola um plano mirabolante para conquistar a Marina, invariavelmente é descoberto. Quando o Cebolinha leva adiante algum plano infalível para derrotar a Mônica, inevitavelmente apanha. Lá tudo funciona. É a Elfland de Chesterton em quadrinhos.

Já o brasileiro comum teve sua capacidade de sentir medo ou indignação embotada. Quebram nossas vidraças, entram sem pedir licença para pegar a bola de volta e nem nos ocorre pedir alguma explicação. Se me pedissem para divisar um critério que, sozinho, fosse capaz de medir o nível de civilização de um país, seria esse: a inclinação que o cidadão médio tem para pedir licença. Quem não pede licença confessa um desdém inveterado pela propriedade privada. É por isso que o americano pede licença sempre que invade uma área contida num raio de 2 metros de distância de qualquer pessoa.

As exigências de ordem moral do brasileiro foram de tal maneira mitigadas que já se pode falar num estado de letargia permanente. O brasileiro, nada obstante a energia e a vivacidade aparentes, é um sonâmbulo, é um "homem cordial" sem educação. Pouco importa que o mundo desabe ao seu lado; o sonâmbulo desperta da modorra por alguns instantes apenas para murmurar algumas reclamações ininteligíveis e voltar ao confortável sono dos que não se importam.

23 setembro, 2006

Alckmin?


Chegamos a um ponto em que votar em Alckmin já se tornou um imperativo moral. Fala-se muito da clivagem relativa às camadas sociais dos eleitores nessas eleições, mas o que vemos é uma reflexão do óbvio: quando o que se precisa para repudiar um candidato é uma quantidade ínfima de informação, não votarão nele aqueles que têm essa informação. Seria o caso de estranhar por que essa clivagem não é ainda mais acentuada: por que diabos ainda há gente que, ganhando mais de 10 salários mínimos, ainda não se decidiu a votar em Alckmin?

Há, claro está, os que se beneficiarão diretamente com a eleição de um outro candidato. Não me refiro a esses. Tampouco me refiro aos que sucumbiram ao mito Lula, o torneiro mecânico (tive a oportunidade de conversar com um técnico de torno, e fui informado de que acidentes nesse tipo de equipamento são impossíveis sem uma boa dose de negligência) que ascendeu aos céus. Esses não têm mais volta. Podemos mostrar-lhes as provas mais cabais e esses fanáticos continuarão irredutíveis; quando muito, interpretarão as provas como um embuste, uma conspiração para derrubar o metalúgirco-prodígio que, dessa forma, sair-se-á com uma aura ainda mais angélica e supernatural, mesmo sendo um inveterado troglodita. Não, não me refiro a esses: é perfeitamente compreensível que votem em Lula ou em qualquer outro que não Alckmin.

Há tambem os que, lendo uma ou outra manchete de jornal, se dizem decepcionados com o PT ou com Lula, resignando-se a votar em Heloísa Helena ou nulo. Mais uma vez, é possível compreendê-los. Certamente também haverá aqueles que acreditam com sinceridade nos méritos de Cristovam Buarque. Até aí nada de grotesco. Restam, porém, aqueles que apesar de não terem sucumbido ao mito, e apesar de não poderem contar com nenhum benefício direto com a eleição de qualquer candidato, e muito embora não sejam doidivanas a ponto de acreditar que alguém como Heloísa Helena seja necessariamente menos perigosa que Lula, e conquanto não queiram desperdiçar o voto num cachorro morto como o Buarque, ainda assim não votam em Alckmin. Fora dessas já mencionadas categorias, é logicamente indefensável não votar em Alckmin.

Existe sempre a ilusão do voto nulo. Cria-se a impressão de que o voto nulo isenta o eleitor de qualquer responsabilidade, ou que lhe serve como carta de protesto contra a situação que aí está. Ocorre que quem já tem mais de 12 anos (e isso inclui, alas, todos os votantes) intui facilmente que, nessas eleições, votar nulo significa votar Lula. Como explicar essa omissão em massa? Ora, não há como explicar, a menos que apelemos para fatalismos do tipo "o brasileiro é burro mesmo." Reparem que, no post Alckmin?, nem sequer falei sobre Alckmin. E com razão: não há a menor necessidade.

09 setembro, 2006

Iniciativa e Proatividade

O que seria de nós se não existissem os com-iniciativa? Não passa um dia sem que eu interrompa, por um ou dois minutos, meus afazeres, agradecendo mentalmente e com grande reverência o trabalho vertiginoso desses virtuosos. Provavelmente não está claro o que quero dizer com 'com-iniciativa': o sujeito com-iniciativa é aquele que, quando anunciam uma festinha qualquer, se disponibiliza, arfando e aos tropeços, para ajudar na organização. Aquele que, se há uma rifa, faz de tudo pra conseguir ajudar na vendagem dos bilhetes.

É claro que a mesquinhez dos exemplos citados é intencional, mas já dá pra ter uma idéia do que quero dizer. Hoje não se pode passar uma esquina sem ouvir algum suposto especialista esbravejando aos quatro ventos: 'precisa-se de iniciativa e de proatividade. Flexibilidade também'. Quem precisa? 'O mercado de trabalho'. Sinceramente espero que essa entidade mística e flutuante, o tal mercado de trabalho, já esteja abarrotada de gente com iniciativa. Será mais fácil manter a distância. E ainda assim agradeço-lhes a existência? Pois sim.

Imagino que seria particularmente difícil sobreviver sem que eles existissem; seria necessário divisar uma maneira alternativa para encontrar os vendedores de bilhetes. Sorteio ou algo do tipo. O certo é que representa esforço hercúleo tentar substituir essa gente; eles são infatigáveis, eles não páram, e eles adoram dizer que não páram. Eles estão sempre juntos: sentem uma necessidade inadiável de se reunir, de debater, de discutir o inominável e de descrever o inefável. Seria o caso de apelar para ferramentas psicanalíticas se eu tivesse competência para tanto. Penso logo em Estragon, personagem da peça Waiting for Godot de Samuel Beckett, aquele mesmo que enchia e esvaziava garrafas sucessivamente para passar o tempo. A diferença é que Estragon sabia que era inútil continuar, apesar de nunca lhe ter passado pela cabeça não continuar.

Falava eu da mania que eles têm de se reunir. Já se transformou em verdadeiro fetiche: reúnem-se para discutir os altíssimos desígnios que lhes foram incumbidos pela iniciativa e pela proatividade. Amiúde chegam à conclusão de que o mundo é verdadeiramente mau e de que é necessário transformá-lo dum só golpe, apesar de eu nunca ter testemunhado, por parte deles, a mais modesta tentativa de compreendê-lo. Não sei que maluco resolveu convencê-los de que têm autoridade ou capacidade para tanto. O certo é que, armados até os dentes com uma filantropia tão burra quanto engraçada, promovem um estrago que requintes de artificiosa deliberação talvez não igualassem.

Já me arrependi: melhor não agradecer.

06 setembro, 2006

Cinema

Recentemente vi três filmes dignos de recomendação:

1. On the Waterfront (Elia Kazan, 1954)


Terry Malloy (Marlon Brando), depois de participar inadvertidamente de um assassinato, e com a ajuda de Father Barry (fazia tempo que eu não via um padre que não faz papel de safado), começa a se voltar contra os chefes corruptos da union de trabalhadores do porto. É claro que essa redenção também conta com a ajuda de Edie, a irmã do já referido morto. Pois bem, enquanto muitos filmes ganharam nome retratando a gradativa descida do homem aos infernos, esse mostra o caminho inverso: com a ajuda de um padre, santo Deus! Imperdível.

2. The Apartment (Billy Wilder, 1960)


É verdade o que sempre se diz a respeito desse filme: é bom como comédia, como drama, como romance; mas principalmente como comédia. Até a gripe do C. C. "Bud" Baxter (Jack Lemmon) consegue ser engraçada. Baxter costuma ceder seu apartamento para que figurões da seguradora em que trabalha possam faturar suas mistresses em paz. Em troca, claro está, de favores profissionais. Acaba se envolvendo com a ascensorista da agência, a lindíssima Fran Kubelik (Shirley MacLaine), que por sinal é amante de um de seus superiores e lhe aparece desmaiada em seu apartamento. Tagline: Movie-wise, there has never been anything like "The Apartment" - laugh-wise, love-wise, or otherwise-wise!

3. To Kill a Mockingbird (Robert Mulligan, 1962)


Não li o livro homônimo da Harper Lee (aquela mesmo, amiga do Truman Capote), apesar de tê-lo recebido como presente de Natal há uns anos. Acabei trocando. Mas é leitura obrigatória pra todo adolescente norte-americano. O livro/filme, ambientado no sul norte-americano, trata do advogado Atticus Finch (Gregory Peck) e sua malograda tentativa de inocentar o comprovadamente inocente e negro Tom Robinson (Brock Peters). Tudo isso a partir da perspectiva de Scout, filha de Finch, ainda pequena na época do julgamento. Dos três filmes aqui citados, é o mais fraco.

Borges e Emma Zunz

Emma Zunz é, juntamente com Historia del Guerrero y de la Cautiva, o único conto não-fantástico do volume El Aleph. Rendeu uma versão do The Movies, que pode ser vista abaixo. Para entender o narrador é necessário um ouvido mais ou menos acostumado ao espanhol. As vozes, é claro, são bem engraçadas.

26 agosto, 2006

El Túnel: XXXVI

Thomas Mann estava certo ao descrever o romance (ou melhor, a novela) El Túnel, do argentino Ernesto Sabato, como impressionante. Aí vai um dos capítulos mais impressionantes:
Fue una espera interminable. No sé cuánto tiempo pasó en los relojes, de ese tiempo anónimo y universal de los relojes, que es ajeno a nuestros sentimientos, a nuestros destinos, a la formación o al derrumbe de un amor, a la espera de una muerte. Pero de mi propio tiempo fue una cantidad inmensa y complicada, lleno de cosas y vueltas atrás, un río oscuro y tumultuoso a veces, y a veces extrañamente calmo y casi mar inmóvil y perpetuo donde María y yo estábamos frente a frente contemplándonos estáticamente, y otras veces volvía a ser río y nos arrastraba como en un sueño a tiempos de infancia y yo la veía correr desenfrenadamente en su caballo, con los cabellos al viento y los ojos alucinados, y yo me me veía en mi pueblo del sur, en mi pieza de enfermo, con la cara pegada al vidrio de la ventana, mirando la nieve con ojos también alucinados. Y era como si los dos hubiéramos estado viviendo pasadizos o túneles paralelos, sin saber que íbamos el uno al lado del otro, como almas semejantes en tiempos semejantes, para encontrarnos al fin de esos pasadizos, delante de una escena pintada por mí como clave destinada a ella sola, como un secreto anuncio de que ya estaba yo allí y que los pasadizos se habían por fin unido y que la hora del encuentro había llegado.

¡La hora del encuentro había llegado! Pero ¿realmente los pasadizos se habían unido y nuestras almas se habían comunicado? ¡Qué estúpida ilusión mía había sido todo esto! No, los pasadizos seguían paralelos como antes, aunque ahora el muro que los separaba fuera como un muro de vidrio y yo pudiese verla a María como una figura silenciosa e intocable... No, ni siquiera ese muro era siempre así: a veces volvía a ser piedra negra y entonces yo no sabía qué pasaba del otro lado, qué era de ella en esos intervalos anónimos, qué extraños sucesos acontecían; y hasta pensaba que en esos momentos su rostro cambiaba y que una mueca de burla lo deformaba y que quizá había risas cruzadas con otro y que toda la historia de los pasadizos era una ridícula invención o creencia mía y que en todo caso había un solo túnel, oscuro y solitario: el mío, el túnel en que había transcurrido mi infancia, mi juventud, toda mi vida. Y en uno de esos trozos transparentes del muro de piedra yo había visto a esta muchacha y había creído ingenuamente que venía por otro túnel paralelo al mío, cuando en realidad pertenecía al ancho mundo, al mundo sin límites de los que no viven en túneles; y quizá se había acercado por curiosidad a una de mis extrañas ventanas y había entrevisto el espectáculo de mi insalvable soledad, o le había intrigado el lenguaje mudo, la clave de mi quadro. Y entonces, mientras yo avanzaba siempre por mi pasadizo, ella vivía afuera, esa vida curiosa y absurda en que hay bailes y fiestas y alegría y frivolidad. Y a veces sucedía que cuando yo pasaba frente a una de mis ventanas ella estaba esperándome muda y ansiosa (¿por qué esperándome? ¿y por qué muda y ansiosa?); pero a veces sucedía que ella no llegaba a tiempo o se olvidaba de este pobre ser encajonado, y entonces yo, con la cara apretada contra el muro de vidrio, la veía a lo lejos sonreír o bailar despreocupadamente o, lo que era peor, no la veía en absoluto y la imaginaba en lugares inaccesibles o torpes. Y entonces sentía que mi destino era infinitamente más solitario que lo había imaginado.

25 agosto, 2006

Mill (2): Utilitarianism

Partindo do princípio utilitário segundo o qual a Felicidade é o objetivo ulterior de nossa existência, coube a Mill, no ensaio Utilitarianism, reformular a idéia que formamos dessa felicidade. Sua idéia difere da tradicional (lê-se da de Jeremy Bentham) em três aspectos: (1) a felicidade adquire um aspecto mais ativo; ela advém principalmente daquilo que realizamos, nosso trabalho e nossas conquistas; (2) a felicidade é idiossincrática, isto é, admitem-se peculiaridades que não necessariamente concorrem para a felicidade de um indivíduo, mas que podem concorrer para a de um outro; (3) as circunstâncias mais relevantes para a obtenção da felicidade são de ordem pessoal, o que constitui a própria tese do On Liberty.

Quem leu o post sobre Viktor Frankl lembrará que (1) é um dos meios citados através dos quais podemos chegar a um sentido. (2) é encarado pelo leitor moderno como uma obviedade, mas não custa lembrar que mesmo reconhecendo a pluralidade do fenômeno da felicidade, Mill acreditava, assim como o fazia Aristóteles, que existe uma, digamos, hierarquia dos prazeres. Mill é axiomático ao afirmar que os prazeres de caráter intelectual são superiores em relação aos demais. Não temos aqui, como talvez quisessem os mais modernosos, liberdade total e irrestrita: It is better to be a human being dissatisfied than a pig satisfied; better to be Socrates dissatisfied than a fool satisfied. Em (3) se verifica a suspeita de que, contrariamente ao que diziam muitos de seus críticos, Mill era um pensador consistente e até bastante sistemático (suspeita que ganha força quando se lê outros de seus ensaios), chegando a níveis de ambição inobserváveis em intelectuais desconexos e intempestivos.

Mill parece tentar divisar nada menos que uma Religião Universal. Sugere que a moral cristã, sem o auxílio de aquisições seculares, não é suficiente para a formação do caráter ideal. Apesar de estar disposto a preencher essa e outras lacunas, persiste a velha dificuldade que assombra todo e qualquer utilitarista: a questão da 'medição' dos prazeres. Ainda que uma classificação bastante ampla seja às vezes possível (como a dos prazeres intelectuais versus o resto, se estivermos realmente dispostos a aceitá-la), qualquer tentativa mais específica não deve esperar muito sucesso. É forçoso reconhecer que a concessão feita em (2) dificulta ainda mais a situação; se talvez chegamos a uma descrição mais fiel da realidade, simultaneamente torna-se mais difícil sua análise: algo como o equivalente do Princípio da Incerteza nas ciências sociais.

Seria conveniente desmistificar o preconceito referente ao termo utilitarismo segundo o qual esse ramo do pensamento apregoa práticas nada menos que egoístas, aliadas ao também famigerado individualismo. Nada tenho contra preconceitos, apenas advirto que esse tem origem numa simples deturpação da termionologia. Utilitarismo não é 'ser feliz' e dane-se o resto:
The utilitarian morality does recognize in human beings the power of sacrificing their own greatest good for the good of others. It only refuses to admit that the sacrifice is itself a good. A sacrifice which does not increase, or tend to increase, the sum total of happiness, it considers wasted.
Mais uma vez as palavras soam familiares: Frankl falava do sofrimento como maneira de obter a felicidade, dado que esse sofrimento tivesse um significado. A diferença é que, sem o termo utilitarismo, a idéia nos parece mais simpática.

20 agosto, 2006

Mill (1): On Liberty

The object of this Essay is to assert one very simple principle, as entitled to govern absolutely the dealings of society with the individual in the way of compulsion and control, whether the means used be physical force in the form of legal penalties, or the moral coercion of public opinion. That principle is, that the sole end for which mankind are warranted, individually or collectively, in interfering with the liberty of action of any of their number, is self-protection.
O objetivo de John Stuart Mill (1806-73) ao escrever esse que se tornou seu ensaio mais famoso, On Liberty, era estabelecer um critério que não somente regulasse as relações entre indivíduo e sociedade, mas que também fosse simples, isto é, um princípio cuja aplicação simples e direta fosse capaz de solucionar qualquer dúvida relativa à interferência do coletivo na esfera individual. Um projeto assim tão ambicioso, ainda que empreendido por uma inteligência prodigiosa como a de Mill, estava fadado a falhar.

Realmente, o que se observa é que o critério proposto por Mill nada tem de simples. Primeiro, ele supõe que cada indivíduo, quando restrito ao âmbito pessoal, aquele que não exerce influência direta sobre quem quer que seja além do próprio indivíduo, tem o direito de cultivar livremente suas idiossincrasias. Difícil precisar os limites dessa "esfera" íntima; há quem argumente que ela nem sequer existe, visto que, a menos que se trate de um recluso, qualquer ação sua pode vir a ter um impacto sobre alguém, ainda que esse impacto não seja mais que um bom ou mal exemplo.

Adiante: sabemos que a interferência do coletivo sobre o individual pode ser justificada com base no argumento de que, no caso em questão, essa interferência evitaria danos a terceiros. Acontece que a interferência pode ser ela própria mais danosa que os males supostamente evitados. É-nos facilmente concebível uma situação em que o estímulo às liberdades pessoais de alguém (por exemplo, a liberdade de abrir um negócio) tem influência marcadamente negativa sobre as interesses de outros (por exemplo, da concorrência). Isso não significa que o Estado deve intervir, suprimindo ou limitando a liberdade de mercado. Se por acaso chegamos à conclusão de que, dada uma situação qualquer, algum tipo de intervenção faz-se necessária, é porque a força das circunstâncias nos fez ver que o mal advindo desse desrespeito à individualidade é mais que contrabalançado pelo benefício final alcançado.

Percebe-se logo que a aplicação desse princípio depende diretamente de longos processos de deliberação, em que devem pesar as especificidades de cada caso, e cujo fim é sempre a escolha, não raro dificílima, do mal menor. Esse é um problema intrínseco à filosofia utilitarista, sobre a qual Mill também escreve: se o objetivo maior de nossa existência é a Felicidade, como determinar os meios mais aconselháveis para a sua obtenção?, ou, questão análoga, como comparar diferentes prazeres? Vale lembrar que Mill vê o respeito à individualidade como condição necessária para se chegar à Felicidade (um dos capítulos do ensaio é chamado Of Individuality, as One of the Elements of Well-Being), motivo mais que suficiente para conferir especial seriedade à decisão de infringi-la.

Boa parte dessas dificuldades foram previstas e até comentadas pelo próprio Mill. Suas perguntas,
What, then, is the rightful limit to the sovereignty of the individual over himself? Where does the authority of society begin? How much of human life should be assigned to individuality, and how much to society?,
feliz ou infelizmente, continuam sem resposta definitiva. Mais uma vez, o pragmático triunfa sobre o paradigmático.

13 agosto, 2006

Mosca Tsé-Tsé

Fui picado pela famosa mosca tsé-tsé. Só dormi esses dias. ZZzz.

Nossa Imparcialidade

Os antigos representavam a Justiça como uma entidade cega. Note-se: cega, não burra. A noção correta de imparcialidade é exatamente essa: a implementação rigorosa de um regulamento cujas consequências não nos são previsíveis, isto é, qualquer um pode estar certo ou errado, qualquer um pode ser inocente ou culpado. A menos, é claro, que haja motivos palpáveis para a deturpação desse equilíbrio.

Ninguém nega a diferença entre homicídio doloso e culposo; não há qualquer traço de parcialidade na iniciativa de tratar um dos casos com mais severidade. Em geral, a mídia brasileira parece pensar diferente. O esforço para parecer imparcial é tão grande que se procura igualar tudo e todos perante a análise do jornalista; qualquer juízo de valor referente ao posicionamento moral dos envolvidos é heresia das mais cabeludas. Essa imparcialidade bonachã e risonha não exclui ninguém: terroristas, assassinos, estupradores etc. Uma temeridade condená-los; é preciso ouvi-los, devem ter tido seus motivos. Na década de 80 deviam ser crianças sofridas.

Quando nos afastamos do campo do Direito, essa obsessão pela imparcialidade passa a ser nada menos que burrice, uma abdicação intelectual total e irrestrita. John Stuart Mill, no ensaio Utilitarianism:
Impartiality, however, does not seem to be regarded as a duty in itself, but rather as instrumental to some other duty; for it is admitted that favour and preference are not always censurable, and indeed the cases in which they are condemned are rather the exception than the rule. A person would be more likely to be blamed than applauded for giving his family and friends no superiority in good offices over strangers, when he could do so without violating any other duty; and no one thinks it unjust to seek one person in preference to another as a friend, connection, or companion.
Outros tempos, outra gente. Depois escrevo sobre o Mill. Ando meio adoentado.

06 agosto, 2006

A França de Burke


A França dos revolucionários é bem conhecida, assim como todos os altíssimos ideais que teriam, supostamente, posto um fim ao ancien régime e dado início a uma era de igualdade e esclarecimento político. A França de Edmund Burke já é um tanto diferente e, talvez por isso mesmo, menos conhecida, apesar de guardar com a realidade (a realidade de até então, 1790, e também a dos anos seguintes) uma similitude assombrosa. Conor Cruise O'Brien, estudioso (também irlandês) autor da introdução de 80 páginas ao volume das Reflections on the Revolution in France da Penguin, afirma que, até hoje, é erro comum entre undergraduates achar que Burke teria escrito seu livro depois de a última cabeça antipática aos ideais revolucionárias ter rolado. Muito pelo contrário, foi publicado em novembro de 1790, período relativamente calmo, quando o Terror e as deliberações facinorosas de Robespierre e congêneres ainda estavam por acontecer.

Há, em primeiro lugar, especulações quanto aos motivos da fúria de Burke: muitos vêem inconsistência no fato de ele ter sido favorável à revolução norte-americana e opositor obstinado da francesa. Outros, como Marx (em nota no seu O Capital), achavam que Burke buscava apenas defender o interesse da ordem estabelecida na Inglaterra, da qual era membro relativamente ilustre. Essa suspeita foi avivada quando passou a receber um estipêndio anual graças ao seu livro, mas O'Brien mostra, sem muita dificuldade, que essas e outras acusações são infundadas. Uma leitura mais detida mostra que o discurso (e a virulência) de Burke ataca não só as novidades francesas, mas, de certa maneira, também algumas das mais sólidas convicções britânicas, o que levou Mary Wollstonecraft a afirmar que, se tivesse nascido sob as circunstâncias convenientes, ele teria sido um modelo de revolucionário!

Há quem diga, também, que as imprecações de Burke são mais consequência de uma natureza imaginativa e exagerada que de uma real apreciação dos fatos. Ora, está claro que ele não ignorava a importância de procedimentos tipicamente panfletários; há momentos, acreditava ele, em que moderação no discurso é exatamente o que o adversário mais deseja:
The calm mode of Enquiry would be a very temperate method of our losing our Object; and a very certain mode of finding no calmness on the side of our adversary. Our being mobbish is our only chance for his being reasonable.
Tampouco seria muito sensato creditar todo o esforço de Burke a uma tática cuidadosamente planejada. Aborrecia-o principalmente os ingleses que flertavam abertamente com a idéia de importar as novas idéias do continente, concentrados em especial na Revolution Society; de tal maneira que seu Reflections é antes uma defesa da constituição inglesa que um ataque às excentricidades francesas, apesar de ambos os fins serem, muitas vezes, perseguidos simultaneamente.

Revoltava-o acima de tudo a tranquilidade com que os revolucionários se arvoraram à posição de destruir toda uma tradição política construída até então, ignorando solenemente todo e qualquer ensinamento que pudesse ser aduzido do legado de seus ancestrais (People will not look forward to posterity, who never look back to their ancesters). Parece fazer parte de nosso senso comum exigir que esse tipo de confiança venha acompanhada de nada menos que a mais brilhante inteligência - já que pretende sustentar-se exclusivamente por si mesma -, sob o risco de passar por capricho de gente presunçosa e amalucada. Burke, cujo motto, tão insistentemente lembrado, é mudar para preservar, mal pode esconder sua aversão ante a facilidade com que muitos franceses viraram as costas para o passado. Se é certo que na coroa francesa havia muito a ser corrigido, há um salto lógico que deixaria Aristóteles tonto em supor que só se poderia corrigi-la através de sua total destruição, com o agravante de querer suplantá-la com instituições igualmente ou até mais arbitrárias que as que acabaram de ser rechaçadas. Burke contrapõe esse comportamento destrambelhado à idéia que faz do governo inglês:
Our political system is placed in a just correspondence and symmetry with the order of the world, and with the mode of existence decreed to a permanent body composed of transitory parts; wherein, by the disposition of a stupendous wisdom, moulding together the great mysterious incorporation of the human race, the whole, at one time, is never old, or middle-aged, or young, but in a condition of unchangeable constancy, moves on through the varied tenour of perpetual decay, fall, renovation, and progression. Thus, by preserving the method of nature in the conduct of the state, in what we improve we are never wholly new; in what we retain we are never wholly obsolete.
Depois de fazer uma análise geral do temperamento revolucionário, Burke prossegue mostrando que, diferentemente do que se esperava (dada a arrogância com que ascenderam), os novos detentores do poder estão longe da idealidade que prometeram trazer. Seja por ignorância (para Burke, essa era a hipótese menos provável), fanatismo ou má-fé, o certo é que os procedimentos da Assembléia Nacional fizeram pouco pelo bem e muito pelo mal do povo francês: há análises detalhadas das medidas tomadas pela assembléia em áreas tão variadas como as finanças, a economia especulativa (Burke previu que a desapropriação das terras da Igreja transformaria a França num paraíso dos especuladores), a hierarquização administrativa e as forças armadas (Burke previu, dessa vez com uma precisão assombrosa, que a ausência de uma autoridade fixa levaria à ascensão de uma figura suficientemente inteligente e carismática que, aproveitando-se da fragilidade política do país, dominaria não só as forças armadas como toda a nação: Napoleão chegou ao poder dois anos depois de sua morte), e as poucas vantagens que delas admite advir lhe parecem meramente conjunturais. Está claro que, quando se destrói todo um governo, destrói-se também o que havia de ruim nele. Infelizmente, isso não é algo de que possamos nos gabar, principalmente quando, juntamente com os erros, encontramos, nos escombros do que já foi derrubado, o próprio mecanismo que possibilitaria a supressão desses erros sem que se fizesse necessária a destruição total.

É possível, aqui também, encontrar as contradições típicas de todo governo que pretende representar os interesses populares. No post sobre Chesterton (Chesterton que, aliás, deve muitas de suas tiradas em defesa ao conservadorismo a Burke), cito uma passagem que se refere rigorosamente à mesma idéia aqui tratada por Burke:
You will smile here at the consistency of those democratists, who, when they are not on their guard, treat the humbler part of the community with the greatest contempt, whilst, at the same time, they pretend to make them the depositories of all power.
E, se na época em que o livro foi publicado muitos se sentiram impelidos a achar que Burke exagerava em suas acusações, os acontecimentos dos anos seguintes desmentiram-nos com grande eloquência. É curioso observar (e isso é perceptível graças às notas explanatórias) que muitos dos primeiros defensores da revolução atacados por Burke foram mais tarde guilhotinados. Ora, se foi esse o tratamento dispensado àqueles que concordavam com o breviário insurrecional (pelo menos em sua versão mais moderada), o que dizer daqueles que foram doudos a ponto de declarar-se sumariamente avessos a ele? Burke declarou-se sumariamente avesso, mas porque havia alguns quilômetros de água entre ele e a costa francesa. Graças a essa distância, pudemos herdar, sem maiores prejuízos para o seu pescoço, o registro de seu ideal de homem político:
A disposition to preserve, and an ability to improve, taken together, would be my standard of a statesman. Every thing else is vulgar in the conception, perilous in the execution.

04 agosto, 2006

A Vida e a Vida

Foi-se o tempo em que nos referíamos às Virtudes com letras maiúsculas. O que rege o homem moderno nao é mais a Honra, a Compaixão, a Verdade ou o Amor, mas a honra, a compaixão, a verdade e o amor. Pelo menos é o que dizem.

É bem que verdade que, paralelamente a isso, a vida tornou-se mais valiosa. Como dizia num outro post, preocupamo-nos mais uns com os outros. Morremos, talvez, mais, mas por melhores motivos: pelo bem da humanidade, não por um tabefe na cara; pela salvação dos tamanduás-bandeira, não por uma dívida que não podemos pagar. Valorizamos tanto a vida que achamos natural tornarmo-nos canibais na falta de comida.

Vivia-se menos quando a vida era realmente importante.

Emily

There's a certain Slant of Light (258)
Emily Dickinson (~1861)

There's a certain Slant of light,
Winter Afternoons –
That oppresses, like the Heft
Of Cathedral Tunes –

Heavenly Hurt, it gives us –
We can find no scar,
But internal difference,
Where the Meanings, are –

None may teach it – Any –
'Tis the Seal Despair –
An imperial affliction
Sent us of the air –

When it comes, the Landscape listens –
Shadows – hold their breath –
When it goes, 'tis like the Distance
On the look of Death –

Italo Calvino, em sua palestra Leveza, esqueceu-se de mencionar essa célebre composição de peso (a idéia dos sinos de uma catedral, apesar de que, segundo consta, Dickinson nunca esteve numa) e leveza (a luz de uma tarde de inverno). Alguns editores inclusive substituíram Heft por weight.

28 julho, 2006

The City in the Sea


Em tempos como estes, é o caso de repetir: The waves have now a redder glow, The hours are breathing faint and low.

Lo! Death has reared himself a throne
In a strange city lying alone
Far down within the dim West,
Where the good and the bad and the worst and the best
Have gone to their eternal rest.
There shrines and palaces and towers
(Time-eaten towers that tremble not!)
Resemble nothing that is ours.
Around, by lifting winds forgot,
Resignedly beneath the sky
The melancholy waters lie.

No rays from the holy heaven come down
On the long night-time of that town;
But light from out the lurid sea
Streams up the turrets silently-
Gleams up the pinnacles far and free-
Up domes- up spires- up kingly halls-
Up fanes- up Babylon-like walls-
Up shadowy long-forgotten bowers
Of sculptured ivy and stone flowers-
Up many and many a marvellous shrine
Whose wreathed friezes intertwine
The viol, the violet, and the vine.
Resignedly beneath the sky
The melancholy waters lie.
So blend the turrets and shadows there
That all seem pendulous in air,
While from a proud tower in the town
Death looks gigantically down.

There open fanes and gaping graves
Yawn level with the luminous waves;
But not the riches there that lie
In each idol's diamond eye-
Not the gaily-jewelled dead
Tempt the waters from their bed;
For no ripples curl, alas!
Along that wilderness of glass-
No swellings tell that winds may be
Upon some far-off happier sea-
No heavings hint that winds have been
On seas less hideously serene.

But lo, a stir is in the air!
The wave- there is a movement there!
As if the towers had thrust aside,
In slightly sinking, the dull tide-
As if their tops had feebly given
A void within the filmy Heaven.
The waves have now a redder glow-
The hours are breathing faint and low-
And when, amid no earthly moans,
Down, down that town shall settle hence,
Hell, rising from a thousand thrones,
Shall do it reverence.

Edgar Allan Poe (1831)