15 março, 2007

Uma Herança Preguiçosa

Acho que poderíamos dizer, sem muito medo de errar, que Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, é o livro mais citado e menos lido por intelectuais brasileiros. É o tipo do livro que costuma ser citado como argumento cumulativo; faz sempre bem tascar uma referência a algo (ou alguém) com reputação posivitamente estabelecida. É de se espantar: o livro tem pouco mais de 200 páginas e é de leitura agradável.

Sabe-se que não costuma ser lido por quem o cita graças à recorrente confusão com a expressão 'homem cordial', mas chegaremos a isso em tempo. De início interessa apontar a distinção feita por Sérgio Buarque entre povos ibéricos e nórdicos:
Um fato que não se pode deixar de tomar em consideração no exame da psicologia desses povos [ibéricos] é a invencível repulsa que sempre lhes inspirou toda moral fundada no culto ao trabalho. Sua atitude normal é precisamente o inverso da que, em teoria, corresponde ao sistema do artesanato medieval, onde se encarece o trabalho físico, denegrindo o lucro, o "lucro torpe".
Desde já reconhecemos, nesse comportamento avesso ao trabalho disciplinado, o oposto do espírito capitalista a que se referia Weber. Desde já, também, reconhecemos em nós mesmos, brasileiros, a persistência desse traço tipicamente ibérico de nosso caráter. Pode-se argumentar que o brasileiro, hoje, até por precisão, está bem mais inserido na realidade do trabalho regular e monótono, mas essa inserção é visivelmente forçada. Há também o peculiar de que o trabalho físico continua a ser denegrido entre nós. A um jovem norte-americano qualquer, por mais abastado que seja, não lhe estranha possibilidade de trabalhar como cortador de grama, baby-sitter ou caixa de supermercado. O jovem brasileiro prefere o emprego de escritório, ocupação 'intelectual', ainda que ganhe menos de um terço do que ganha um fritador de hambúrgueres americano. Qualquer outra opção seria antes de mais nada humilhante. Prossegue Buarque:
É compreensível, assim, que jamais tenha se naturalizado entre gente hispânica a moderna religião do trabalho e o apreço à atividade utilitária. Uma digna ociosidade sempre pareceu mais excelente, e até mais nobilitante, a um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada dia.
Surge assim a oposição trabalhadores-aventureiros, sendo os hispânicos, como é claro, representantes do segundo grupo. O aventureiro aprecia o exótico, o lucro fácil e repentino, as regalias e títulos nobilitários acessíveis através do acúmulo de riquezas, enquanto que o trabalhador desenvolve uma moral que encara o trabalho como um fim em si mesmo: o acúmulo de dinheiro é apenas mais uma indicativa de que o ofício em questão, por ser lucrativo, deve ser exercido com ainda mais cuidado e rigor. É evidente que (como o próprio Buarque faz questão de lembrar) esses tipos 'puros' só existem no campo das idéias, mas servem como parâmetros para situar o caráter nacional num contexto mais amplo.

A índole mais aventureira (e por isso mesmo mais indolente) do brasileiro tende a minar qualquer tentativa mais extensiva de estabelecer uma hierarquia rígida, seja no ambiente de trabalho ou dentro de casa. O herói brasileiro, o exemplo a ser seguido, é o indivíduo que obtém sucesso rapidamente, de preferência dum só golpe, numa tacada de gênio. Olhamos com certo desprezo para a obediência servil do pequeno empregado respeitador das hierarquias, que ascende os degraus da notoriedade com uma paciência quase ascética. Diferentes versões desse desprezo são visíveis nos mais variados ambientes: na universidade, inteligente é quem, com um mínimo de esforço, alcança a nota necessária para a aprovação. Qualquer dedicação que a exceda é nada mais que isso: excedente e sinceramente injustificável. Já o militarismo é de todo visto com maus olhos pelos brasileiros.

Outra consequência disso é que até mesmo o sentimento racista, entre nós, não parece ter sido genuinamente incorporado como certamente o foi em povos mais ao norte:
De qualquer modo, o exclusivismo "racista", como se diria hoje, nunca chegou a ser, aparentemente, o fator determinante das medidas que visavam a reservar a brancos puros o exercício de determinados empregos. Muito mais decisivo do que semelhante exclusivismo teria sido o labéu tradicionalmente associado aos trabalhos vis a que obriga a escravidão e que não infamava apenas quem os praticava, mas igualmente seus descendentes.
Assim, Buarque chega à conclusão de que o escravo era principalmente aviltado não por ser negro, mas por ser, oras, escravo, e por se ocupar, como é claro, dos serviços que lhe eram destinados. Os hagiógrafos esquerdosos de Buarque gostam de ignorar esse detalhe, mas é uma consequência lógica inevitável para quem aceita as premissas do hispânico aventureiro e 'cordial'. O negro (ou preto, expressão utilizada no livro mas que não nos é mais dado repetir), desde que consiga perceber essas peculiaridades, será apenas mais um entre tantos. A cordialidade (e aqui chegamos, finalmente, ao homem cordial) do brasileiro admite de bom grado a proeminência social do negro.

A confusão relativa ao termo 'homem cordial', título do quinto capítulo do livro, parece ter nascido, segundo nos conta o professor Bolívar Lamounier, de uma querela entre Cassiano Ricardo e o próprio Buarque. Nas palavras do autor da expressão (tomada a Rui Ribeira Couto):
[...] cabe dizer que, pela expressão "cordialidade", se eliminam aqui, deliberadamente, os juízos éticos e as intenções apologéticas a que parece inclinar-se o sr. Cassiano Ricardo, quando prefere falar em "bondade" ou em "homem bom". Cumpre ainda acrescentar que essa cordialidade, estranha, por um lado, a todo formalismo e convencionalismo social, não abrange, por outro, apenas e obrigatoriamente, sentimentos positivos e de concórdia. A inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, nisto que uma e outra nascem do coração, procedem, assim, da esfera do íntimo, do familiar, do privado.
Ricardo, num artigo-resposta que alcança as trinta páginas e que eu ousaria chamar ilegível, chega à conclusão de que o termo é inadequado e que mais correto seria substitui-lo por 'simpático'. Buarque, numa resposta de menos de três páginas, sentencia: Além disso acredito que nossa divergência se reduz em parte a uma questão de palavra. Divergência que, infelizmente, perpetuou o embaraçoso costume de associar o homem 'cordial' a um homem 'bom' ou simplesmente 'educado'. Vários intelectuais já fizeram a confissão involuntária de que não leram o livro ao fazer essa associação. Em realidade, a 'cordialidade' do livro é a própria languidez de que falávamos mais atrás: para Buarque, é ela a responsável pela dificuldade que nosso povo tem em estabelecer relações hierárquicas imparciais, indispensáveis em qualquer agrupamento social. O brasileiro quer que todos em volta (incluindo aí familiares, colegas e superiores no trabalho, o papa, o presidente e o reitor da universidade) sejam, antes de mais nada, amigos, ou que ao menos seja possível manter relações 'amistosas'.

A cordialidade brasileira parece ser um sintoma de preguiça. Assim como nos aborrece o ter de prestar reverências a algum superior (a própria palavra 'superior', aplicada a seres humanos, parece-nos inatural), procuramos maneiras rápidas e práticas de estabelecer e mostrar qualquer tipo de autoridade. O pensamento especulativo nunca foi um nosso forte, mas admiramos quem seja capaz de cunhar frases elaboradas e ostentosas, ainda que vazias. Lemos muito pouco, mas o diploma universitário é indispensável. Pouco importa se, no processo de obtenção do diploma, lemos menos ainda.

09 março, 2007

Intelectuais

O intelectual, na acepção moderna do termo, é uma criança à espera da salvação. O fenômeno não é novo: depois que desistiu da literatura, Tolstoi serviu de guru e líder espiritual para quem quer que fosse visitá-lo em Yasnaya Polyana. Transformou-se num 'intelectual' profissional. Das muitas encarnações do homem massa de Ortega, a mais irritante parece ser precisamente essa, a do intelectual sabe-tudo; o sujeito que, por ordem divina (ou infernal), deve ser ouvido com reverência sobre assuntos com os quais não têm a menor familiaridade. Crêem eles numa espécie de continuum mental que lhes assegura que competência em, digamos, literatura, é prova cabal de genialidade no comentário político ou na carpintaria.

Acabo de ver dois filmes que ilustram bem duas facetas periféricas do intelectual (ou político) profissional: o primeiro deles, o Interiors (1978) de Woody Allen, lida, intencionalmente ou não, com a chatice pura e simples. O resultado é que o próprio filme é insuportável. Num diálogo que durou 30 segundos (fiz questão de checar porque a primeira impressão foi de que durou 5 minutos), a personagem interpretada por Diane Keaton, com aquela carinha enjoada típica de poeta vegetariana, fala de como um de seus poemas, ao ser por ela reescrito para ser publicado numa revista, ficou excessivamente 'ambíguo'. E de como teria que reescrevê-lo uma vez mais. Para quem assiste ao filme (e para quem, como nós, não leu o poema), essa discussão tem o curioso particular de não significar absolutamente nada. Ao fim e ao cabo, a nossa única esperança é a de que ela venha, um dia, a trabalhar como garçonete, ou algo do tipo, para adquirir, quem sabe, algum senso de praticidade.

Alguns minutos depois a mesma personagem começa um bate-boca com o marido, também ele, ó céus, escritor. O marido está revoltado porque seu último livro não recebeu o devido reconhecimento da mídia. A reação imediata, como não poderia deixar de ser, é tomar um porre, gritar com a mulher, invejar o reconhecimento que a mulher tem, falar de como sua própria escrita perdeu o 'vigor', ou a 'originalidade', ou a 'modernidade', ou o 'encanto' que supostamente já teve. Além de tentar agarrar a cunhada, a atriz. Já a outra cunhada, cujo namorado é um agitador político que admira crianças que matam pela 'liberdade', vive uma crise existencial por não conseguir se expressar (seja através da fotografia ou da literatura) e acha que todo o talento da família foi herdado pela irmã (a poeta). A mãe, enquanto isso, está no hospital se recuperando de uma tentativa de suicídio: o marido a largou por uma gordinha serelepe.

Já estou rangendo os dentes só com a lembrança. Passemos para o seguinte. É o The Lost City (2005), dirigido e estrelado por Andy Garcia. É muito pouco provável que você tenha visto esse filme no cinema. Segundo me consta, ele só foi exibido, no Brasil, em algumas salas do Rio e de São Paulo, e ainda assim por poucas semanas. Entende-se logo o porquê: trata da revolução cubana e não retrata Guerava e Castro com muita simpatia. Cumpre ressaltar, e esse parece mesmo ser o aspecto mais interessante do filme, a facilidade com que a juventude é seduzida pela utopia revolucionária, ainda que haja quem os alerte para a besteira que estão prestes a fazer. Em dado momento, a namorada de Fico Fellove (interpretado por Garcia), já irremediavelmente envolvida com o castrismo, confessa-se perdida por 'nunca ter feito parte de algo tão importante'. Temos aí um traço característico do intelectual/político profissional: uma carência, a que me refiro através da expressão 'carência institucional', de fazer parte de qualquer clube, organização, instituição ou entidade que lhe forneça alguma ilusão de importância. Ele quer sempre 'reunir' pessoas, 'debater' questões, 'otimizar' processos, apesar de raramente sair do campo das abstrações. Em outras palavras, quer soar e parecer importante e ocupado.

Quando Wilde dizia que o maior defeito da juventude é querer ser útil ele devia ter isso em mente.

02 março, 2007

Crônicas da Vovó

A velhice é provavelmente o ideal mais romântico que cultivo e, a despeito disso ou talvez por isso mesmo, evito qualquer contato mais próximo com idosos. Meus avós paternos ainda são vivos mas nossos encontros são de tal maneira esparsos e superficiais que meus devaneios sobre a condição dos velhos não costumam ser afetados. Em verdade, meu avô raramente fala, apesar de ser exemplarmente saudável para um ancião de 86 anos. Não me sinto desconfortável ao confessar esse sintoma de indolência intelectual: ele só pode fazer mal a mim mesmo.

O primeiro e mais óbvio aspecto é o do acúmulo de conhecimento, a questão da experiência etc. e tal. Tudo isso é reconhecido popularmente, mas o fato é que não costumamos ter muita paciência com os coitados. Nada obstante ouvirmos o que têm a dizer com certa reverência mal disfarçada, parece existir o tácito consenso de que tudo quanto dizem é velharia e que só poderia ser válido, quando muito, na época em que eles mesmos eram jovens (ou seja, há mais de 50 anos), como se nossa capacidade cognitiva necessariamente sofresse uma espécie de congelamento (ou até regressão) quando passamos dos 70. Pode-se dizer que o espírito de nossa época é 'jovem': os jovens querem ser jovens e os velhos querem-no mais ainda. Talvez por isso eu os prefira calados.

Isso deve explicar o fato de tantos velhos quererem 'rejuvenescer' mentalmente. Ouve-se sempre aquela baboseira: D. Maria tem 80 anos, mas a mentalidade é de um garota. Pergunto eu: por que diabos D. Maria gostaria de ter a mentalidade de uma garota? Estudou, trabalhou, viajou, enfim, viveu por 80 anos apenas para ser violentamente jogada de volta ao próprio passado? Uma velha usando roupas curtas é tão ridículo quanto um adolescente jogando paciência o dia inteiro ou tomando remédio para artrite.

Voltando à questão do acúmulo de conhecimentos. O lado perigoso disso é que, realmente, a capacidade de mudanças drásticas parece estar entre as 'camadas' intelectuais mais jovens, o que não deixa de ser lógico. É como se tivéssemos de expulsar qualquer resquício de burrice antes que o processo de mero acúmulo tenha início. Se isso não for feito, haverá apenas dois caminhos possíveis: o primeiro é a consolidação e até a radicalização da burrice, um processo aparentemente sem volta (alguém ainda nutre esperanças de que Saramago ou até mesmo Chico Buarque, esse último ainda bem jovenzinho para os padrões desse post, venham a dizer coisa com coisa em matérias de política?); o segundo, que comparativamente seria uma benção, é o do arrefecimento geral, um declínio de qualquer entusiasmo, de tal maneira que a burrice, se não for diminuída, pelo menos permanecerá inconspícua.

Mas o mais fascinante da velhice (e esse é o aspecto verdadeiramente romântico da minha perspectiva) é a resignação, a serenidade dos que sabem envelhecer. Perde-se tudo: a família morre, os amigos morrem, até a força das pernas se lhes vai embora e eles permanecem (não por niilismo, quero crer) impassíveis e ciosos de sua própria desimportância, mas nem por isso menos orgulhosos. Os que sabem envelhecer devem encarar com um desprezo enorme a mania juvenil dos velhinhos modernos; esses últimos não só não entendem o mundo dos jovens como se julgam irremediavelmente atrelados a ele. O velho-jovem é o eterno estrangeiro, a stranger in a strange land.

24 fevereiro, 2007

Duas Histórias (1)

Inauguro com esse post um ramo do conhecimento chamado 'história comparada'. Se é mesmo verdade que, como Aristóteles dizia, 'História é o que o historiador faz', passemos a comparar duas delas: a primeira é de responsabilidade conjunta de Cláudio Vincentino e Gianpaolo Dorigo, autores do História Para o Ensino Médio - História Geral e do Brasil, que utilizei durante todo o ensino médio; a segunda é a de Paul Johnson, em seu Modern Times - The World From the Twenties to the Nineties. O primeiro tema escolhido é a Revolução Russa.

Na versão tupiniquim a mendacidade começa logo no primeiro parágrafo, num quadrinho chamado Para Pensar Historicamente:
Inicialmente comparada à Revolução Francesa, por caracterizar uma libertação do país dos grilhões absolutistas, adaptando-se às exigências sociais e políticas do século XX, a Revolução Russa, a nosso ver, não teve paralelo histórico. Diferentemente do que aconteceu na Revulução de 1789, não foi a burguesia russa que assumiu o poder. Foram os líderes do proletariado, que comandaram o processo revolucionário, forçando uma ruptura social e política inédita (...). A partir disso, podemos nos fazer algumas perguntas: a transformação revolucionária teria sido insuficiente? Permaneceram estruturas e comportamentos incompatíveis com os anseios revolucionários? O colapso da União Soviética teria decorrido do que foi feito ou do que deixou de ser feito durante o processo revolucionário?
Bom, não vou comentar o tom de melancolia contida, principalmente nas últimas três perguntas, com o fato de a Revolução não ter obtido sucesso a longo prazo. Cabe realmente saber se, como a dupla sugere, a Revolução teria 'adaptado' o país às 'exigências' sociais e políticas do século XX e se foram realmente os líderes do proletariado que comandaram o processo revolucionário. Em tempo: em se tratando de livros de história de ensino médio, revolução é sinônimo de adaptação (não pode haver adaptação que se dê por outros métodos), e as tais 'exigências', essas entidades quase sobrenaturais, provêm diretamente do determinismo histórico de Marx. Antes de tentar responder a essas perguntas, sigamos adiante com a versão brasileira.

Num trecho referente ao governo de Lenin, ficamos sabendo que
As mudanças nas estruturas tradicionais de poder, entretando, ativaram a oposição dos mencheviques e czaristas (que passaram a ser chamados de russos brancos). Apoiados pelas potências aliadas, receosas da propagação da revolução de caráter popular pelo mundo, as duas facções mergulharam o país numa sangrenta guerra civil (...).
Surgem, aqui, mais duas questões: a Revolução tinha mesmo caráter popular? E, mesmo que tivesse, foram os mencheviques e czaristas, essas duas facções malvadas, os responsáveis pela guerra civil sangrenta? Outro detalhe é que a polícia política revolucionária, a Tcheca, criada ainda sob os auspícios de Lenin, só vem a ser mencionada na seção referente a Stalin. Falando na seção de Stalin, a única imagem que o livro traz nessa parte é uma foto do metrô de Moscou, com a seguinte caption: "Foi durante o segundo plano quinquenal, que visava (sic) acelerar o desenvolvimento, que se construiu o metrô de Moscou."

Passemos para a versão de Johnson. Quanto às alegações de que a Revolução teve, desde o início, um caráter popular, Johnson observa sobre Lenin:
He had no real power-base in Russia. He had never sought to create one. He had concentrated exclusively on building up a small organization of intellectual and sub-intellectual desperadoes, which he could completely dominate. It had no following at all among the peasants. It had a few adherents among the unskilled workers. Lenin's intransigence had driven all the ablest socialists into the Menshevik camp.
O fato de Lenin, por puro oportunismo (já que não tinha apoio popular), ter criado o slogan 'todo poder aos sovietes' parece ter sido evidência suficiente, para a dupla brasileira, de que o proletariado de fato dirigiu o processo revolucionário. A realidade é que o processo de tomada de decisões, na medida em que isso ia se tornando possível, ficou a cargo de um reduzido grupo de desperadoes. A Revolução foi de fato levada a cabo por camponeses, que já eram em número de 103,2 milhões em 1913, contra no máximo 15 milhões de membros do 'proletariado' (na acepção mais larga do termo). A advertência de Engels segundo a qual a pior coisa que pode acontecer a um líder revolucionário é chegar ao poder quando as condições para a Revolução ainda não estão 'maduras' não parece ter diminuído a pressa de Lenin.

Resta saber de onde surgiu a violência. A dupla tupiniquim dá a entender que mencheviques e czaristas começaram a lambança, mas, para a nossa surpresa, o próprio Lenin parece discordar dessa visão:
Believing, as he did, that violence was an essential element in the Revolution, Lenin never quailed before the need to employ terror. From the French Revolution he could quote Robespierre: 'The attribute of popular government in revolution is at one and the same time virtue and terror, virtue without which terror is fatal, terror without which virtue is impotent. The terror is nothing but justice, prompt, severe, inflexible; it is thus an emanation of virtue.'
Por algum motivo que escapa ao nosso entendimento, Vicentino e Dorigo também se esquecem de mencionar os crimes praticados pela Tcheca, antes mesmo que Stalin chegasse ao poder. Os 'grilhões' absolutistas, por outro lado, são pintados com tintas macabras. Não se sabe o porquê, já que
The Tsar's secret police, the Okhrana, had numbered 15 000, which made it by far the largest body of its kind in the old world. By contrast, the Cheka, within three years of its establishment, had a strenght of 250 000 full-time agents. Its activities were on a correspondingly ample scale. While the last Tsars had executed an average of seventeen a year (for all crimes), by 1918-19 [ou seja, sob Lenin] the Cheka was averaging 1 000 executions a month for political offences alone.
Aqui termina o nosso primeiro exercício de 'história comparada'. Como diria o Cobrador de Rubem Fonseca: só rindo.

22 fevereiro, 2007

Uma Cruzada às Avessas

Falando em Olavo de Carvalho, ele esteve envolvido em duas das investidas contra religião mais tresloucadas que vi nos últimos tempos: a primeira, de Janer Cristaldo, já tem um tempinho, e a de Rodrigo Constantino é tema dos artigos mais recentes do Olavo, apesar de a discussão (se é que se pode chamá-la assim) ter começado no Orkut, na comunidade do próprio Olavo.

O que mais chamou minha atenção nesses episódios anti-religiosos (ou, mais especificamente, anticristãos) é a homogeneidade dos 'argumentos': raramente a Inquisição não é pintada como a entidade mais sanguinária do período medieval, raramente os maiores líderes religiosos não são porcos gananciosos e enganadores, interessados apenas em fama e riquezas materiais, e propugnadores de toda sorte de autoritarismos e restrições às liberdades do indivíduo. Para finalizar, como prova cabal de que qualquer forma de religião institucionalizada é mesmo coisa para idiotas retrógrados, produz-se uma listinha de ilustres ateus cujos destaques são invariavelmente Bertrand Russell e Jean-Paul Sartre, dois dos maiores mistificadores do século passado. Qualquer semelhança com seu próprio comportamento aos 15 anos de idade não é mera coincidência.

As deturpações reproduzidas acima podem, a princípio, ser corrigidas com informações em sua forma mais bruta: contra a acusação de que os tribunais inquisitoriais eram cruéis, podemos lembrar que os civis eram-no mais ainda; contra a assunção de que líderes religiosos são necessariamente facinorosos, rápidos esboços biográficos demonstram que não só isso não é verdade como que a impudicícia moral é muito mais abundante entre autoridades seculares; em oposição à listinha de ateus, podemos produzir outra (para ficar só com cristãos) contendo os nomes de Dante, Tomás de Aquino, Newton, Leibniz, Bach, Dostoievski e Carpeaux.

Mas, como é claro, chegar à simples conclusão de que a religião não é um embuste global, supratemporal e maquiavélico não é suficiente, apesar de até isso ser difícil nos dias que correm. Mesmo os ditos 'tolerantes' não admitem que os 'crentes' creiam publicamente, isto é, que elevem suas convicções à forma de um estilo de vida (a não ser que esse estilo se confunda com o estilo secular vigente): religião deve ser coisa particular, quase secreta, praticada na forma de uma oraçãozinha na hora de dormir, a portas trancadas. O que não puder ser observado em laboratórios deve imediatamente ser retirado de qualquer argumentação dita 'racional'; o que não puder ser reduzido a uma simples relação de causa e efeito é por força delírio pessoal ou superstição: a temível pseudociência. Ocorre que essa exigência é tão opressora quanto determinar que um marxista só fale de materialismo dialético na cama, ou que um kantiano só fale de Razão (ou que um hegeliano só fale de História ou que um voltaireano só fale de bom senso) quando estiver num mood fantasioso e/ou lírico. A existência da História de Hegel é tão evidente quanto a de um Deus na forma de um icosaedro.

É essa exigência absurda que está por trás da obsessão que todo bom ateu demonstra ao exigir uma 'demonstração' da existência de Deus. A demonstração vai entre aspas porque ela está além de qualquer ponderação filosófica (que ele supõe ser impossível ou mera divagação por se tratar de um assunto tão 'abstrato' e 'pessoal'): o sujeito quer nada menos que a foto de um velho barbado, vestido numa túnica, passeando de estrela em estrela ou dando uma corridinha nos anéis de saturno. Ou, como na aquarela de William Blake acima, dando uma de onipotente. A palavra incompatibilidade (assim como a incompatibilidade entre ciências humanas e exatas que vimos no post sobre Berlin) não poderia ter melhor emprego que esse: um mecanicista, ainda fascinado com os bloquinhos de Newton, tentando entender metafísica.

21 fevereiro, 2007

O Antiolavismo

Quem já teve a oportunidade de conhecer um adolescente fascinado por Olavo de Carvalho sabe como o 'olavete' típico pode ser bem chato. A fascinação é justificável (até certa idade, claro): o Olavo representaria aquele guru que expõe e desmistifica a burrice reinante no meio acadêmico, nas conversas com amigos e na cultura, principalmente a nacional, em geral. O sentimento de minoria é particularmente atraente; forma-se um grupo seleto que, por esforço próprio e contra a corrente, consegue enxergar mais longe que a média.

Esse sentimento (a princípio saudável) de pertencer a um pequeno grupo, aliado a uma propensão ao exagero e a uma confiança excessiva em esqueminhas preestabelecidos, degenera no que se conhece por aí pelo apelido carinhoso de olavete. Por incrível que pareça, o próprio Olavo é muito mais modesto e agradável que seus sequazes mais entusiasmados. Se os olavetes servem para alguma coisa, é para pintar o retrato de um possível Olavo de daqui a vinte anos: intransigente e gagá. O verdadeiro olavete se debate com a senilidade antes dos 20 anos.

Mas o olavete é só isso: um deslumbrado. Já o antiolavete convicto, numa escalada que faz jus ao prefixo anti-, chega a níveis estarrecedores de incapacitação mental. A primeira e principal característica do antiolavete é padecer do mesmo mal que tanto denuncia: com uma obsessão que espantaria o próprio Olavo, ele enxerga olavetes em qualquer buraco. Reinaldo Azevedo, Friedrich Hayek, Milton Friedman (aquele que implantou a ditadura no Chile!) e Russell Kirk, ninguém escapa. O antiolavismo é o avesso do avesso, a caricatura da caricatura: o futuro do antiolavismo é o olavismo.

Há uns tempos escrevi sobre piadas mal contadas e metáforas mal escritas: é sempre constrangedor. Quanto maior a pretensão, maior o constrangimento. O antiolavete se supõe o contrapeso ideal à 'insânia' olaviana; enxergando olavetes em qualquer árvore ele pretende, com sua sensatez inesgotável, colocar o mundo de volta em sua devida órbita. Ele é moderno, descolado: está a anos-luz à frente dos moralismos de um Reinaldo Azevedo; não se deixa enganar pela crença tresloucada de Hayek no livre mercado; não admite debate com economistas golpistas e autoritários como Friedman e não vê diferenças entre Kirk e um fascista. Refutar o Olavo? Para quê? A burrice do Olavão é arquievidente; só nos resta rir. É sempre desagradável ter de sentir vergonha pelos outros. Os antiolavetes têm um grande débito de vergonha.

Quem mais sofre com isso tudo é a Igreja, ou melhor, qualquer forma de religião institucionalizada. Infelizmente para ela, o Olavo já a defendeu com veemência em vários textos e, como sabemos, isso já é motivo para que as antiolavetes se assanhem. Mas esse é um problema ainda mais grave. Fica para o próximo post.

10 fevereiro, 2007

Um Homem em Silêncio

Pegando o embalo do post anterior, achei que seria boa idéia dar um exemplo de uma personalidade tipicamente silenciosa. John Calvin Coolidge (1872-1933) foi o trigésimo presidente dos EUA (1923-29) e até hoje é visto com maus olhos pela historiografia oficial americana. Apesar de a jazz age ter sido um período de progresso vertiginoso para os americanos (os anos 50 é a única outra época que consegue competir em termos de entusiasmo), até recentemente muitos viam a frieza de Coolidge - e seu laissez-faire - como responsável pela crise de 29. Como se sabe, a realidade é bem mais complicada, e já há quem argumente que o intervencionismo de seus sucessores (Hoover e Roosevelt) prolongou uma crise que, como a de 1920, poderia ter desaparecido em um ano.

Pode-se dizer tranquilamente que Coolidge foi o presidente mais consistente na história dos EUA: ao deixar o cargo, avaliou que Perhaps one of the most important accomplishments of my administration has been minding my own business. Realmente, o discurso de Coolidge parece ter sido o último suspiro genuinamente laissez-faire na história da humanidade: um suspiro, diga-se, que às vezes dá a impressão de ser gostosamente preguiçoso, mas que é consequência de uma 'filosofia' muito bem pensada e definida. A verdade é que, como Eisenhower algumas décadas mais tarde, Coolidge gostava de dar a impressão de que era pouco sofisticado ou até ingênuo.

Detestava comprar a crédito. Aprendeu na loja do pai que quem não tem dinheiro (vivo) não deveria se meter a fazer compras. Quando os termos do tratado de Versailles forçaram a Alemanha a quitar suas dívidas com a Inglaterra, que por sua vez devia aos EUA, que por sua vez emprestaram aos alemães para que eles tivessem condições de pagar os ingleses (num processo cíclico que ficou mundialmente famoso pela sua inutilidade), Coolidge justificou a pressa com um lacônico They hired the money, didn't they?

Ficou nacionalmente conhecido em 1919 ao esmagar a greve da polícia de Boston: There is no right to strike against the public safety by anybody, anywhere, anytime. Alguns anos mais tarde foi eleito presidente com os slogans Law and Order, Keep Cool with Coolidge, Coolidge or Chaos e The chief business of the american people is business. Não chega a surpreender que seu apelido (de que gostava muito) tenha sido Silent Cal. Na campanha de 1924, notou: I don't recall any candidate for president that ever injured himself very much by not talking. Também é conhecido por observar que The things I never say never get me into trouble. Em sua autobiografia, confessou que a regra que segue com mais veemência consists in never doing anything that someone else can do for you.

Em agosto de 1927, Coolidge chamou 30 jornalistas para a Casa Branca e, depois de avisar que The line forms on the left, entregou para cada um deles um pequeno papel em que se lia I do not choose to run for president in 1928. Essa decisão não deixa de ser estranha: a essa altura, Coolidge ainda era querido por todos. A verdade é que ele sabia, como qualquer outra pessoa suficientemente informada à época, que o progresso não poderia continuar para sempre. Cal says there's a depression coming, nas palavras de Grace, sua esposa. O próprio Coolidge complementa: I know how to save money. All my training has been in that direction. The country is in a sound financial condition. Perhaps the time has come when we ought to spend money. I do not feel I am qualified to do that.

Limitado? Pode até ser. Mas muitas das lições de Coolidge ainda merecem ser repetidas:
Government cannot relieve from toil. The normal must take care of themselves. Self-government means self-support... Ultimately, property rights and personal rights are the same thing... The prime element in the value of all property is the knowledge that its peaceful enjoyment will be publicly defended. Without this legal and public defence the value of your tall buildings would shrink to the price of the waterfront of old Carthage or corner-lots in ancient Babylon... History reveals no civilized people among whom there was not a highly educated class and large aggregations of wealth. Large profits means large payrolls. Inspiration has always come from above.

07 fevereiro, 2007

Um Post em Silêncio

Entusiasmado com a constatação de que três das quatro coisas que mais afligem minha paciência estão de alguma maneira relacionadas com o barulho (são elas: pessoas com mastigação barulhenta, qualquer tipo de barulho enquanto durmo e o barulho do telefone), resolvi escrever sobre o silêncio. Até o quarto membro da minha listinha, o calor, tem sua relação com a falta de silêncio: o pesquisador norte-americano William J. Shaffor, da Princeton University, mostrou recentemente que a agitação das partículas de ar (provocada pelo aumento excessivo da temperatura) num ambiente suficientemente pequeno e cuidadosamente vedado leva a colisões intermoleculares de uma intensidade tal que podem ser percebidas pelo ouvido humano.

Mas o silêncio tem uma história comprida e tortuosa, e muito me admira que ainda não tenham escrito (até onde eu saiba) uma História Universal do Silêncio. Como todo conceito excessivamente simples, o de silêncio pode assumir desdobramentos os mais variados e até mesmo contraditórios. Bem sei que essa última frase nada significa sem exemplos. Tomemos o capítulo LV das Memórias Póstumas, O Velho Diálogo de Adão e Eva:
BRáS CUBAS
. . . . . . . . . . . . . . . . .

VIRGíLIA
. . . . . . . . . . . . . .

BRáS CUBAS
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

VIRGíLIA
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . !

BRáS CUBAS
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

VIRGíLIA
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BRáS CUBAS
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VIRGíLIA
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BRáS CUBAS
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . !

VIRGíLIA
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ?

BRáS CUBAS
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . !

VIRGíLIA
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . !
Outro exemplo bem conhecido, e que segue a mesma linha, pode ser encontrado no Anna Karenina de Tolstói, no momento em que Levin e Kitty finalmente se reconciliam:
'Here,' he said, and wrote the initial letters: w, y, a, m: t, c, b, d, i, m, n, o, t? These letters meant: 'When you answered me: "that cannot be", dit it mean never or then?' There was no likelihood that she would be able to understand this complex phrase, but he watched her with such a look as if his life depended on her understanding these words.

She glanced at him seriously, then leaned her knitted brow on her hand and began to read. Occasionally she glanced at him, asking with her glance: 'Is this what I think?'

'I understand,' she said, blushing. (...)

'Well, here, read this. I'll tell you what I would wish. Would wish very much!' She wrote the initial letters: t, y, c, f, a, f, w, h. It meant: 'that you could forgive and forget what happened'.

He seized the chalk with his tense, trembling fingers and, breaking it, wrote the initial letters of the following: 'I have nothing to forgive and forget, I have never stopped loving you.'
Nesses dois casos fica claro que o silêncio (ou a ausência de palavras, ou a ausência da necessidade de representá-las) dá conta de um entendimento ulterior, uma união especial que prescinde de qualquer elaboração linguística para fazer-se inteligível. Ora, ocorre que o silêncio pode vir a representar algo diametralmente oposto: o reconhecimento de que não há como estabelecer qualquer tipo satisfatório de comunicação. É mais ou menos disso que Italo Calvino reclama em sua palestra Exatidão:
A linguagem me parece sempre usada de modo aproximativo, casual, descuidado, e isso me causa intolerável repúdio. Que não vejam nessa reação minha um sinal de intolerância para com o próximo: sinto um repúdio ainda maior quando me ouço a mim mesmo. Por isso procuro falar o mínimo possível, e se prefiro escrever é que, escrevendo, posso emendar cada frase tantas vezes quanto ache necessário para chegar, não digo a me sentir satisfeito com minhas palavras, mas pelo menos a eliminar as razões de insatisfação de que me posso dar conta. A literatura - quero dizer, aquela que responde a essas exigências - é a Terra Prometida em que a linguagem se torna aquilo que na verdade deveria ser.
Feliz ou infelizmente, essa constatação pode ter contornos bem mais trágicos: o que em Calvino é apenas um repúdio contra o desleixo com que é tratada a linguagem, em outras mentes mais radicais pode adquirir a forma de um ultimatum contra qualquer possibilidade de comunicação humana. É a impressão que se depreende do manjadíssimo O Grito, do norueguês Edvard Munch:

Qualquer um percebe que o 'grito' só tem seu efeito marcante exatamente porque não podemos ouvi-lo: como diria Ortega, a moeda falsa circula apoiada pela moeda verdadeira. E, nesse caso como em muitos outros, a moeda verdadeira é o silêncio.

Em se tratando do efeito contrapontístico (mesmo na acepção não-musical do termo) do silêncio, pensa-se logo em música. O silêncio pode ser empregado numa inversão repentina ou num lânguido crescendo, e não chega a admirar que tenham surgido ocasiões para utilizações mais inovadoras do herói desse post: o compositor John Cage, por exemplo, resolveu 'compor' uma piece que consiste em quatro minutos e trinta e três segundos do mais inveterado silêncio. Quando perguntaram a respeito da importância do silêncio em sua obra, Cage limitou-se a responder que Until I die there will be sounds. And they will continue following my death. As for silence, there's a countdown to its extinction. A música popular brasileira também faz uso sublime do silêncio. Por exemplo, nos intervalos entre uma e outra música.

Na primeira imagem, Harpócrates, o deus helênico do silêncio.

02 fevereiro, 2007

Deuses Malvados

Algo que nos impressiona em Apocalypto é o morticínio levado a cabo para aplacar a sede dos deuses maias. Realmente, o filme mostra umas 5 ou 6 cabeças rolando a escadaria principal de um zigurate antes que os deuses, nas palavras do próprio chefe de cerimônias (v. foto), se dêem por satisfeitos. É um choque principalmente para aqueles que, submersos na produção historiográfica do século 20, ainda vêem as civilizações ameríndeas como compostas de astrônomos delicados e arquitetos metidos a artistas.

Nesse sentido, Mel Gibson nos faz um grande favor ao deixar os colonizadores europeus totalmente de fora, o que por si só já pareceria um absurdo para um filme que se propõe a mostrar a civilização maia em decadência. Não há dúvidas de que há muito o que dizer sobre a violência dos conquistadores espanhóis: alguns dos relatos são de revirar o estômago. Mas a prática de sacrificar seres humanos em rituais religiosos, como se sabe, é algo bem distante do modus operandi cristão.

É claro que tanta selvageria não teria como não deixar sua marca nas manifestações artísticas dessas civilizações. No filme mesmo os prisioneiros de guerra, a caminho da execução, podem ver os painéis de pedra em que outros prisioneiros como eles são degolados e empalados, e têm seus corações arrancados ainda em vida. Há sangue por toda parte. Os deuses têm sede.

Paul Johnson, no capítulo de sua História da Arte (Art: A New History) que trata da Espanha, observa que
A fierce European detestation of human sacrifice went right back to the Romans, and had been steadily reinforced by Christian teaching. It took many forms in the Americas but one in particular made the flesh of the Spanish creep. From about 1200 BC right up to the conquest, a religious ritual game had been played, with a rubber ball, in which the players of the losing team were decapitated by the other side. In the Leiden Museum there are pottery figures showing players grasping knives and trophies in the form of heads, and decapitating losing players. Stone relief panels and stone steles tell the same gruesome story.
Gibson, em Apocalypto, escolheu um 'jogo' mais popular, em que os prisioneiros correm enquanto os demais testam a pontaria com pedras, lanças e flechas.

As cenas de violência são realmente muitas, mas, se querem mesmo saber, não me pareceram exageradas. A verdade é que, no ambiente em que estamos, a violência exagerada parece brotar naturalmente, e por isso mesmo deixa de ser exagerada. Um jaguar mastigando a cabeça de um índio ou uma flecha atravessando a nuca (até sair pela boca) de outro não me parecem de maneira alguma desconectados com o fanatismo sanguinário que permeia boa parte do filme.

E finalmente, respondendo a um comentário que já ouvi mais de uma vez - como poderia o filme retratar a decadência da civilização maia se mais da metade dele se ocupa em mostrar a perseguição de um único índio? - eu diria que, não havendo decadência, não haveria perseguição. Aliás, isso é algo que o filme faz questão de deixar explicíto desde o início: a decomposição começa internamente.

30 janeiro, 2007

Lorrain e Keats

O poema de John Keats (1795-1821) abaixo, Ode to a Nightingale, é inspirado na pintura de Claude Lorrain (1600-1682) acima, Landscape with Psyche at the Palace of Cupid. O palácio é descrito como tendo magic casements, opening on the foam / Of perilous seas, in faery lands forlorn. O poema também tem outras linhas bem famosas como tender is the night e Now more than ever seems it rich to die.

night·in·gale
–noun
any of several small, Old World, migratory birds of the thrush family, esp. Luscinia megarhynchos, of Europe, noted for the melodious song of the male, given chiefly at night during the breeding season.

1.

My heart aches, and a drowsy numbness pains
My sense, as though of hemlock I had drunk,
Or emptied some dull opiate to the drains
One minute past, and Lethe-wards had sunk :
‘Tis not through envy of thy happy lot,
But being too happy in thine happiness, -
That thou, light winged Dryad of the trees,
In some melodious plot
Of beechen green, and shadows numberless,
Singest of summer in full-throated ease.

2.

O for a draught of vintage! that hath been
Cool'd a long age in the deep-delved earth,
Tasting of Flora and the country green,
Dance, and Provençal song, and sunburnt mirth!
O for a beaker full of the warm South,
Full of the true, the blushful Hippocrene,
With beaded bubbles winking at the brim,
And purple-stained mouth;
That I might drink, and leave the world unseen,
And with thee fade away into the forest dim:

3.

Fade far away, dissolve, and quite forget
What thou among the leaves hast never known,
The weariness, the fever, and the fret
Here, where men sit and hear each other groan;
Where palsy shakes a few. sad, last grey hairs,
Where youth grows pale, and spectre-thin, and dies;
Where but to think is to be full of sorrow
And leaden-eyed despairs,
Where Beauty cannot keep her lustrous eyes,
Or new Love pine at them beyond to-morrow.

4.

Away! away! for I will fly to thee,
Not charioted by Bacchus and his pards,
But on the viewless wings of Poesy,
Though the dull brain perplexes and retards:
Already with thee! tender is the night,
And haply the Queen-Moon is on her throne,
Cluster'd around by all her starry Fays;
But here there is no light,
Save what from heaven is with the breezes blown
Through verdurous glooms and winding mossy ways.

5.

I cannot see what flowers are at my feet,
Nor what soft incense hangs upon the boughs,
But, in embalmed darkness, guess each sweet
Wherewith the seasonable month endows
The grass, the thicket, and the fruit-tree wild;
White hawthorn, and the pastoral eglantine;
Fast fading violets cover'd up in leaves;
And mid-May's eldest child,
The coming musk-rose, full of dewy wine,
The murmurous haunt of flies on summer eve.

6.

Darkling I listen; and, for many a time
I have been half in love with easeful Death,
Call'd him soft names in many a mused rhyme,
To take into the air my quiet breath;
Now more than ever seems it rich to die,
To cease upon the midnight with no pain,
While thou art pouring forth thy soul abroad
In such an ecstasy!
Still wouldst thou sing, and I have ears in vain -
To thy high requiem become a sod.

7.

Thou wast not born for death, immortal Bird!
No hungry generations tread thee down;
The voice I hear this passing night was heard
In ancient days by emperor and clown:
Perhaps the self-same song that found a path
Through the sad heart of Ruth, when, sick for home,
She stood in tears amid the alien corn;
The same that oft-times hath
Charm'd magic casements, opening on the foam
Of perilous seas, in faery lands forlorn.

8.

Forlorn! the very word is like a bell
To toll me back from thee to my sole self!
Adieu! the fancy cannot cheat so well
As she is fam'd to do, deceiving elf.
Adieu! adieu! thy plaintive anthem fades
Past the near meadows, over the still stream,
Up the hill-side; and now 'tis buried deep
In the next valley-glades:
Was it a vision, or a waking dream?
Fled is that music: – Do I wake or sleep?

28 janeiro, 2007

Felicidade Hoje e Ontem

Olhando pela milésima vez o álbum de fotos de meus avós, chego à conclusão de que as pessoas eram mais felizes naqueles tempos. Se não sentiam necessidade de sorrir para a câmera é porque eram mais felizes. Reparem no exemplo abaixo, uma fotografia de 1922, em que minha bisavó (esquerda) traz um tio-avô meu no colo:

Até mesmo as crianças, cientes de que se trata de um registro para a posteridade, preferem manter um ar sombrio e austero. Devem saber que o sorriso, afinal de contas, é um estado facial anômalo: um sem-número de músculos e porções de pele se rexendo e contorcendo para chegar a um estágio final caótico e instável. Quem já observou um número razoável de fotos dessa época sabe que o padrão se repete inclusive em ocasiões festivas. Abaixo temos um outro exemplo, alguns anos mais recente, de um casamento realizado em Messejana, cidade natal do José de Alencar. Minha avó está sentada, à direita.

Reparem que nem mesmo o sujeito erguendo o chapéu sente a necessidade de sorrir. Bons tempos esses em que o império da felicidade compulsória ainda não tinha invadido nossas fotografias.

22 janeiro, 2007

Babel

Babel é o mais novo filme do mexicano Alejando González Iñárritu e, assim como seus dois predecessores mais conhecidos, 21 Grams e Amores Perros, não justifica o desperdício de duas horas de nossas vidas. Pensando bem, talvez o 21 Grams justifique, mas nesse caso o mérito é todo da Naomi Watts. Vamos ao que interessa.

Babel segue o mesmo caminho de seus irmãos mais velhos: acompanhamos o desenrolar de 4 linhas narrativas aparentemente desconexas que, cedo ou tarde, se encontram. A diferença é que agora o esquema é internacional; temos um casal norte-americano em Marrocos, uma adolescente japonesa no Japão, uma mexicana, imigrante clandestina, na Califórnia etc. A intenção desse artifício, se me é permitido repetir o óbvio, é mostrar uma espécie de união misteriosa entre os seres humanos; ilustrar questões edificantes como a existência ou não de coincidências ou de um destino inescapável, a influência que pequenas decisões podem ter em nossas vidas etc. Com esse último filme temos um toque de 'universalidade' (não por acaso, as manifestações artísticas que menos me agradam são as que não sabem velar esse objetivo): agora os efeitos de cada atitude atravessam fronteiras e chegam rapidamente ao outro lado do mundo; observamos a reação de pessoas as mais diferentes ante o sofrimento inevitável. A intenção parece ser nada menos que um tratado sobre o comportamento humano.

Perguntei a alguns conhecidos por que tinham gostado do filme e invariavelmente ouvi coisas do tipo: 'é tudo muito real, muito plausível'. Minha sensação é exatamente a mesma: presenciei uma colagem de eventos que, ligados por uma ou outra coincidência, poderiam muito bem ter acontecido. Mas e daí? Passa-me logo pela cabeça o que alguns críticos de Mel Gibson, por ocasião do lancamento de Apocalypto, disseram sobre o diretor-galã: é um sádico, viciado em violência gratuita. Ainda não vi o filme e não sei se concordo (é provável que não), mas digo o mesmo de Iñárritu, trocando apenas o fetiche: o mexicano é viciado em sofrimento humano, de preferência um sofrimento que se dê da maneira mais tosca e constrangedora possível. Se vierem a lançar um caixa comemorativa com DVD's dele, sugiro que ponham na capa uma foto daquela cena de Babel em que a empregada mexicana, perdida num deserto, faminta e com areia até a testa, aos tropeços num vestido já todo rasgado, pede, com berros que logo se misturavam às lágrimas, a atenção da patrulha policial que acaba de passar.

Se essa cena já parece suficientemente desagradável, é com pesar que anuncio que há várias outras não menos degradantes, daquelas que nos forçam a perguntar: 'ele realmente tinha que mostrar isso?'. Desde já antecipo que nada tenho contra cenas violentas e/ou potencialmente repulsivas desde que sirvam, é claro, a um objetivo maior (feita a concessão, deve-se reconhecer que certas escolhas podem continuar sendo esteticamente deploráveis). E esse objetivo maior inexiste nos filmes de Iñárritu, a menos que o sadismo aqui apontado ecoe na pobre alma de quem lhe assiste.

A Babel de Iñárritu é o simétrico oposto da do Gênesis: no filme todos já começam falando línguas diferentes e terminam numa mesma massa amorfa de sofrimento prolongado e excruciante e sem significado. A ira divina nunca foi tão avassaladora. Principalmente para quem vai ao cinema.

A ilustração acima é A Confusão das Línguas, de Gustave Doré.

18 janeiro, 2007

A Origem da Tragédia Berliniana

No ensaio que abre o volume The Proper Study of Mankind, intitulado The Pursuit of the Ideal, Isaiah Berlin (1909-1997) declara que
At a certain stage in my reading, I naturally met with the principal works of Machiavelli. They made a deep and lasting impression upon me, and shook my earlier faith. I derived from them not the most obvious teachings - on how to acquire and retain political power (...) - but something else.
Que outros ensinamentos não tão óbvios seriam esses? A que exatamente ele se refere com earlier faith? A resposta será dada com mais detalhes no ensaio The Originality of Machiavelli, em que Berlin chama nossa atenção para a distinção básica proposta por Maquiavel, a distinção entre o tipo romano e o tipo cristão. Maquiavel desde sempre deixa claro que prefere um Estado nos moldes da República Romana ou do início do Império, e não vê como virtudes tipicamente cristãs - humildade, aceitação do sofrimento, esperança de uma vida eterna após a morte - possam levar o homem a esse ideal. A despeito do grande desacordo existente entre os comentadores do pensador florentino, parece existir um consenso quanto a esse ponto em específico: Maquiavel em nenhum momento tenta nos convencer de que valores cristãos são 'inferiores' ou de qualquer maneira repreensíveis a priori (apesar de ele ainda ser tido por muitos como um anti-cristão exacerbado); apenas acredita que eles são incompatíveis com uma determinada organização social, uma organização (forte e estável) que ele deseja e acredita ser possível ver reestabelecida entre os seus.

Berlin não demora a apontar o caráter revolucionário dessa suposta incompatibilidade: desde (pelo menos) Platão estávamos - e de certa maneira estamos até hoje - acostumados a pensar em termos de um ideal único, um fim glorioso em que culminaria toda cogitação verdadeiramente 'inteligente' ou 'lógica' ou 'racional'. Admite-se inclusive a possibilidade de que não é dado ao ser humano alcançar esse fim, mas isso não implica sua não-existência. Voltaire afirma que o governo ideal será divisado univocamente por quem quer que se dê ao trabalho de analisar a questão com suficiente cuidado e racionalidade (o seu famoso bom senso), e Comte se pergunta por que deveríamos aceitar dissidências (ou heresias) em questões políticas se não as aceitamos na Física ou na Matemática. Temos aí a origem da tragédia berliniana: Maquiavel parte a rocha da conhecimento, inicialmente maciça e aparentemente indestrutível, em dois pedaços mutuamente incompatíveis:
If what Machiavelli believed is true, this undermines one major assumption of Western thought: namely that somewhere in the past of the future, in this world or the next, in the church or the laboratory, in the speculations of the metaphysician or the findings of the social scientist, or in the uncorrupted heart of the simple good man, there is to be found the final solution of the question of how men should live. If this is false, the idea of the sole true, objective, universal human ideal crumbles. The very search for it becomes not merely Utopian in practice, but conceptually incoherent.
Cada metade da rocha deu origem a muitas outras, obviamente menores e ainda mais diferentes entre si - mas esse, é claro, não foi um passo empreendido por Maquiavel. É ao comentar a obra do alemão Johann Herder (1744-1803), no Herder and the Enlightenment, que Berlin fala pela primeira vez em pluralismo. Uma consequência de ordem prática desse pluralismo é que, se reconhecemos que não há somente um objetivo final legítimo, há uma brutal divisão de esforços. É natural supor dedicação exclusiva e inquebrantável a um ideal que sabemos verdadeiro e único: por ele sacrificaríamos até nossas próprias vidas. Mas eis que Berlin (ou, antes dele, Giambattista Vico e Johann Herder) distingue uma profusão de alternativas igualmente plausíveis e que não raro são tragicamente incompatíveis entre si. O próprio John Stuart Mill admitia que devemos restringir a liberdade individual dos cidadãos (através das leis) para que não descambemos numa sociedade incapaz de garantir qualquer liberdade, por mais sufocada que seja. Troca-se um pouco de liberdade pela possibilidade de viver pacificamente em sociedade, e o nobre ideal de liberdade nem por isso passa a ser menos nobre.

Em vez de esforço exclusivo na perseguição de um único fim, o que Herder propõe é a existência de perspectivas culturais incomensuráveis. Incomensuráveis, mas não imperscrutáveis, e é exatamente nesse particular que Vico, Herder e Berlin se distanciam do relativismo (tal como o termo é empregado hoje em dia). A esse respeito Berlin não poderia mais claro:
'I prefer coffee, you prefer champagne. We have different tastes. There is no more to be said.' That is relativism. But Herder's view, and Vico's, is not that: it is what I should describe as pluralism - that is, the conception that there are many different ends that men may seek and still be fully rational, fully men, capable of understanding each other and sympathising and deriving light from each other, as we derive it from reading Plato or the novels of medieval Japan - worlds, outlooks, very remote from our own.
O esforço não é mais exclusivo, mas de maneira alguma diminui: muito pelo contrário, sabemos por experiência própria que poucas coisas são mais difíceis que penetrar os recessos mais íntimos de qualquer cultura que nos seja distante. Se queremos compreender o povo egípcio, os costumes egípcios ou a arte egípcia, precisamos primeiro entender - ainda que superficialmente, e ainda que ela nos pareça, hoje, particularmente repulsiva - a mentalidade egípcia como um todo. A tragédia berliniana não se cansa de refrescar nossa memória quanto às dificuldades inerentes a esse processo, mas, diferentemente do relativismo ou do multiculturalismo, ao menos admite a possibilidade de persegui-lo com um mínimo de sucesso. Acusar Berlin de relativismo (algo longe de ser incomum) não é, então, apenas uma falha circunstancial: trata-se de negar o fundamento mais básico da doutrina pela qual ele é mais conhecido. Se somos capazes de entender e derive light de culturas tão diferentes da nossa é porque há algo em comum entre todas elas. De fato, ainda somos todos humanos.

14 janeiro, 2007

Futebol: Praia do Futuro, Fortaleza, Ceará

- Macho: caralho, macho! Toca essa bola!

Chego a um campo de terra batida, na praia do futuro. O pessoal que está de fora nem me cumprimenta (os que estão jogando muito menos) apesar de todos me conhecerem. Vão logo dizendo que vou ter de tirar par ou ímpar com o outro sujeito que acaba de chegar; eles vão jogar, chegaram há mais tempo. O sujeito que chegou comigo não aceita, argumenta que os outros já jogaram hoje e que por isso devem ceder a vez. Muita discussão e xingamentos. Chega-se a um acordo quando a partida anterior já tinha acabado há mais de cinco minutos; os que vão saindo do campo incrementam a gritaria.

- Porra, começa logo isso!

Não começam porque há discussão pra ver quem começa com a bola. O goleiro do time adversário avisa que nosso time está completamente irregular; é forte demais. Possidônio e Carlinhos (vulgo "Carlin") no mesmo time é palhaçada. Avisa ainda que eles devem começar com a bola porque estão sem camisa. Eu interrompo e digo que, sendo esse o problema, nós poderíamos tirar as nossas. Erro fatal: eles têm precedência porque tiraram primeiro. No mundo particular do futebol, quem faz algo primeiro adquire uma autoridade tacitamente interdita.

- Manda aquele filho da puta ligar o resto das luzes! Tá todo mundo pagando!

Um moleque de uns 12 anos tinha ido na chave de força e apagado algumas luzes, provavelmente a mando do dono, pra economizar energia. Mal o jogo começa e já estão discutindo porque o nosso goleiro pegou um recuo de bola com a mão. "Arriégua, isso aqui agora é a Fifa, é?", mas não tem jeito: o Jorginho, do outro time, gosta de seguir as regras à risca. Enquanto isso o Joaquim, notório encrenqueiro, começa a insultar, de fora do campo, a mãe de um de nossos atacantes:

- Ei, Mário, como é mesmo que a mãe do Dudu ri? Ah, ah, ah? Muito escrota aquela velha...

Nosso time faz um gol e a partida tem de ser interrompida por mais uns cinco minutos porque ninguém se candidata a substituir o goleiro. "Eu avisei que era o último a ir pro gol", "Avisou porra nenhuma", "Aproveita e vai tu, é bom que não atrapalha o time". O pessoal que está de fora começa a ficar indócil e a avisar que os dez minutos já se passaram. Olho pro meu relógio e vejo que ainda faltam três. O jogo termina empatado e surge novo desentendimento: saem os dois times ou batemos pênaltis?

- Macho, esse pessoal não se entende nunca.

Hora de ir embora. Juvenal vai logo avisando que não vai pagar porque só jogou duas partidas: "Não joguei quase nada!", "Quem manda ser ruim? São só 4 reais...", "Só tenho dois". Juvenal abre a carteira e faz um esforço danado pra esconder a nota de dez reais. Mais cinco minutos de convencimento e ele aceita pagar o resto: "Nem tinha visto esse dinheiro aqui...". O pessoal começa a se afastar. Alguns conhecidos, que não me viam há anos, percebem minha presença e acenam com a cabeça. Mas a regra é evitar cumprimentos desnecessários.

- Eu não vou apagar essa luz! O último a sair que apague.

09 janeiro, 2007

Let the Bells Ring

Let the Bells Ring - Nick Cave & the Bad Seeds


C'mon, kind Sir, let's walk outside
And breathe the autumn air
See the many that have lived and died
See the unending golden stair
See all of us that have come behind
Clutching at your hem
All the way from Arkansas
To your sweet and last amen

Let the bells ring
He is the real thing
Let the bells ring
He is the real, real thing

Take this deafening thunder down
Take this bread and take this wine
Your passing is not what we mourn
But the world you left behind
Well, do not breathe, nor make a sound
And behold your might work
That towers over the uncaring ground
Of a lesser, darker world

Let the bells ring
He is the real thing
Let the bells ring
He is the real, real thing

There are those of us not fit to tie
The laces of your shoes
Must remain behind to testify
Through an elementary blues
So, let's walk outside, the hour is late
Through your crumbs and scattered shells
Where the awed and the mediocre wait
Barely fit to ring the bells

Let the bells ring
He is the real thing
Let the bells ring
He is the real, real thing

08 janeiro, 2007

A Mania do Moderno

Se deixamos de lado qualquer mentalidade imediatista (no sentido nada pejorativo do termo), noções de 'atualidade' e 'modernidade' perdem boa parte de seu significado, graças, em boa medida, ao uso desregrado que se faz dos termos. Dizer que uma obra de ficção é 'moderna' ou 'atual' já quase equivale a dizer que ela é 'boa'. Ensaístas e resenhistas fazem das tripas coração para encontrar um argumento que lhes permita coroar a obra sob análise com o famigerado 'moderno'. Maquiavel é moderno. Shakespeare é moderno. Racine é moderno. Bernard Shaw é moderno. Brecht é moderno. Alguém seria capaz do prodígio de indicar um dramaturgo que, sendo excelente à sua maneira, consiga escapar do rótulo 'moderno' (isto é, minimamente atual) na sua acepção mais ampla? Isso parece ser impossível porque a acepção de 'moderno', hoje, é tão ampla quanto se queira.

Certamente esses autores (e quaisquer outros dignos de nota) são modernos no sentido de que têm sempre algo pertinente a nos dizer; conselhos e impressões e julgamentos que, por mais estranhos que nos pareçam, ainda preservam um tom em comum com nossas próprias convicções. Se seus motivos nos fossem completamente ininteligíveis, simplesmente não os leríamos: jogaríamos a obra de Shakespeare no lixo e equipararíamos Otelo a um cão raivoso, indigno de qualquer simpatia. Mas entender isso como modernidade é esvaziar a palavra de seu significado.

Mais que o óbito de uma palavra, essa mania parece representar um fascínio nosso por tudo que se propõe a ser modernoso: lemos em livros didáticos que esse autor se desfez das 'amarras do passado' e que aquele outro se livrou das 'correntes da convenção' como se as tais amarras e convenções fossem necessariamente contrárias à natureza humana. A liberalidade que hoje nos entusiasma será, no seu devido tempo, também desafiada por radicais que não raro defendem valores que, para os radicais da geração passada, eram considerados reacionários. All's well that changes well.

03 janeiro, 2007

A Idéia Científica

And, whenever obsession by a given pattern causes a given writer to interpret the facts too artificially, to fill the gaps in his knowledge too smoothly, without sufficient regard to the empirical evidence, other historians will instinctively perceive that some kind of violence is being done to the facts, that the relation between evidence and interpretation is in some way abnormal; and that this is so not because there is doubt about the facts, but because there is an obsessive pattern at work.
Como ilustração de uma idéia rigorosamente científica, pede-se demonstrar que a raiz quadrada de 2 é um número irracional. Qualquer dançarina de forró, sabendo o que é um número racional, percebe intuitivamente que raiz de 2 (ou de 3, 5, 6, 7, 8, 10 etc.), é um número irracional: afinal, como escolher dois números naturais e primos entre si m e n tais que m/n = 21/2 ? Se é a escolha desses dois números que nos parece difícil, tudo indica que devemos partir precisamente desse resultado e, através de um reductio ad absurdum, chegar à conclusão de que o número é com efeito irracional. Então:

1) Supomos que raiz de 2 é racional, isto é, 21/2 = m/n, com m e n naturais e primos entre si (isto é, m e n não têm fatores comuns).

2) Multiplicando por n e elevando ambos os lados da equação ao quadrado, chegamos a 2n2 = m2. O termo da esquerda é par porque contém o fator 2, e o da direita tambem o é porque é igual ao da esquerda. Se m2 é par, m também é (essa proposição pode ser facilmente demonstrada, mas é bem intuitiva) e, portanto, m pode ser expresso na forma m = 2k, k natural.

3) Substituindo m = 2k na equação de (2), chegamos a 2n2 = 4k2, isto é, n2 = 2k2. Pela mesma argumentação de (2) concluimos que n é par.

4) Chegamos a um absurdo: m e n são pares (têm pelo menos um fator 2 em comum), apesar da restrição inicial segundo a qual eles deveriam ser primos entre si. O erro está necessariamente na suposição de que raiz de 2 é racional, o que não nos deixa outra saída além de concluir que raiz de 2 é irracional.

A argumentação acima é um exemplo clássico do determinismo inerente ao raciocício matemático. O que não é racional é irracional; na eventualidade de um resultado inesperado (ou simplesmente incoerente), sabemos exatamente onde se encontra o erro. O matemático parte de um resultado conhecido e, respeitando algumas regras internas, prossegue freneticamente, com um solene desprezo por tudo que não diz respeito ao universo matemático: a fome dos camponeses chineses e o derretimento das calotas polares lhe são, com muita razão, indiferentes. Por mais que haja dúvidas, sabemos com um mínimo de precisão onde se encontram as explicações, caso elas existam. Até no momento de reconhecer seu próprio fracasso a matemática é avassaladora: o seguinte teorema prova que não existem soluções para essa equação, aquele outro deixa patente que não há primitivas para aquela função. Em suma: trata-se de um universo maciço (ainda que não possamos ver, hoje, todas as partes) e coeso e independente, e não chega a surpreender que queiram estender essa exuberância formal e inclusiva a outras áreas do conhecimento.

Isaiah Berlin, num dos ensaios do The Proper Study of Mankind (de que falarei mais diretamente em outros posts), aponta essas e outras peculiaridades do campo das ciências naturais numa tentativa de mostrar a inconsistência subjacente à idéia de estender o rigor determinístico da matemática às ciências sociais ou humanas. Figuras da importância de Hegel, Comte, Taine, Spengler etc. julgaram entrever o elo que ligaria esses dois ramos tão distintos do conhecimento. Aplicações diretas dessa suposição levam invariavelmente a resultados bem caricatos: há pouco falávamos de Weber e, se o alemão aceitasse semelhante idéia, seríamos obrigados a ler conclusões do tipo 'João converteu-se ao Calvinismo e, portanto, é hoje um capitalismo milionário', ou 'José continua pobre e letárgico porque sofre de alguma grave moléstia mental, de vez que se converteu ao Calvinismo há tempos.'

Mais surpreendente que o fato de não poucas pessoas entenderem a história como uma ciência exata é o esforço imaginativo que muitos despenderam na tentativa de demonstrar essa visão. Já vimos, com Spengler, o quanto a 'demonstração' de uma tese que nos parece despropositada (ou até ridícula) pode ser interessante por motivos completamente alheios à tese propriamente dita. Que mentes tão iluminadas tenham se dedicado com tanto afinco a idéias tão anti-empíricas e carentes, muitas vezes, de qualquer consistência interna, parece ser consequência de uma confiança excessiva na própria inteligência. O homem ordinário simplesmente desistiria no meio do caminho e atribuiria os resultados absurdos a alguma inconsistência que ele mesmo não é capaz de discernir. Spengler e congêneres, na tentativa de divisar uma ciência única e totalizante, acabam adotando a postura do matemático: fecham-se num universo que eles supõem completo e coeso e nem sequer se constrangem com as excentricidades que lhe aparecem, dado que elas sejam consequência da aplicação rigorosa de alguns poucos preceitos axiomáticos. Não lhes ocorre que até mesmo Euclides desconfiava de seus postulados.

29 dezembro, 2006

Praia

Final de semana na praia. Naturalmente, não na praia acima, que a rigor não existe. Mas aproveito a oportunidade para confessar-me fascinado pelo mar, apesar de vê-lo somente em intervalos cada vez mais distantes entre si. Esse fascínio chega a mim através de figuras como Conrad, Coleridge, Melville e Poe e permanece, insisto, intacto. Como todo sujeito sem imaginação e com um mínimo de bom senso (assim espero), não me aventuro a expor uma versão propriamente minha dessa atração. Há alguns anos, frequentei um curso de literatura chamado A Sea of Words, onde se lia desde Coleridge até... não lembro o nome, mas o que importa é que é péssimo. Muito já foi dito sobre as armadilhas, para o escritor, da narrativa erótica. Um pequeno descuido e já passamos para campo do ridículo. Troquem a mulher (ou o que quer que sirva nos dias que correm) pelo mar e adentramos uma seara não menos perigosa, da qual, aliás, já foram vítimas o nosso Carpeaux (que obviamente não era nenhum mestre do estilo mas que nada obstante não era dado a escorregões), Stephen Crane e, em alguns raros momentos, o próprio Conrad. Faço o favor de partir para algo que nada tem que ver com descuidos, a saber, um trecho da Rime of the Ancient Mariner, do Coleridge, em que o Albatroz dá início a sua singela vingança (a íntegra pode ser encontrada com facilidade na web):

And the Albatross begins to be avenged.

Water, water, every where,
And all the boards did shrink;
Water, water, every where,
Nor any drop to drink.

The very deep did rot: O Christ!
That ever this should be!
Yea, slimy things did crawl with legs
Upon the slimy sea.

About, about, in reel and rout
The death-fires danced at night;
The water, like a witch's oils,
Burnt green, and blue and white.

(...)

And some in dreams assuréd were
Of the Spirit that plagued us so;
Nine fathom deep he had followed us
From the land of mist and snow.

And every tongue, through utter drought,
Was withered at the root;
We could not speak, no more than if
We had been choked with soot.

(...)

Ah! well a-day! what evil looks
Had I from old and young!
Instead of the cross, the Albatross
About my neck was hung.

21 dezembro, 2006

Civilização e Barbárie

Se decidimos adotar a representação esquemática sugerida por A. C. Bradley - em seu Shakespearean Tragedy (1904) - para o herói das tragédias de Shakespeare, encontraremos em Otelo um representente típico. Primeiro temos a apresentação, o delineamento do caráter do herói: no caso do mouro de Veneza, conhecemos um combatente de coragem e de compleição moral impecável. Mesmo quando sugerem que teria empregado algum tipo de feitiçaria (em cujos efeitos mágicos o mouro, como sabemos, acreditava) para conquistar os amores de Desdêmona, Otelo mantém-se circunspecto e prova sua inocência sem maiores dificuldades. Sua suposta firmeza de caráter (tida como breathtaking por um crítico) dá o tom do primeiro ato, passado ainda em Veneza.

O segundo estágio apontado por Bradley é, evidentemente, o conflito central, the heart of the matter. É nesse estágio que o herói costuma experimentar uma antítese de si mesmo: Otelo, inicialmente sereno e dono de si, dá vazão a um comportamento irascível e destrambelhado; chega a ter um ataque epiléptico na frente de Iago e a esbofetear a mulher em público. Maynard Mack, no ensaio The Jacobean Shakespeare, lembra que esse expediente é recorrente na tragédia shakespeareana. Assim Lear, de início a própria imagem da autoridade e da resiliência, perde completamente a compostura (e boa parte da sanidade), mais tarde, por ter de enfrentar, praticamente sozinho, uma tempestade. Assim também Hamlet, apresentado como dono de the courtier's, soldier's, scholar's, eye, tongue, sword, terá sua posição sensivelmente comprometida até o final da peça. Essa transição se dá paralelamente a um deslocamento geográfico (que, segundo lembra Mack, também é comum em outras tragédias): da cidade-modelo Veneza para a virulenta Chipre, acoçada, e é por isso que Otelo vai para lá, por um ataque turco. Mack comenta:
Furthermore, though it would be foolish to assign to any of the journeys in Shakespeare's tragedies a precise symbolic meaning, several of them have vaguely symbolic overtones - serving as surrogates either for what can never be exhibited on the stage, as the mysterious processes, leading to psychic change, which cannot be articulated into speech, even soliloquy, without losing their formless instinctive character; or for the processes of self-discovery, the learning processes - a function journeys fulfill in many of the world's best known stories (the Aeneid, the Divine Comedy, Tom Jones, etc.)
A grande verdade é que a crítica shakespeareana chegou ao ponto de querer encontrar uma correspondência simbólica até para o mais inexpressivo clown. Nada mais natural. Convém, então, escolher as que mais nos interessam (evidências textuais, é sempre bom lembrar, não atrapalham). Em se tratanto de Othello, a oposição Veneza/Chipre ou, se quisermos extrapolá-la, de vez que Chipre está sendo atacada mas ainda se encontra sob controle, Veneza/Império turco parece carregar mais que um simples vague symbolic overtone. Dá-nos impressão disso a Veneza tal como descrita nos inícios da peça. Brabantio, pai de Desdêmona, ao receber a notícia (uma das artimanhas do Iago) de que estava a ser assaltado, demorou, com razão, a acreditar:
What tell'st thou me of robbing? This is Venice;
My house is not a grange [isolated house].
Mais característica ainda é a descrição que Otelo dá, também no primeiro ato, de suas peripécias mundo afora. São tão variadas e amedrontadoras que, além de chamar a atenção de Desdêmona para as bravuras do mouro, fazem-nos o favor de descrever bem como é a vida fora de "Veneza":
Wherein I spoke of most disastrous chances,
Of moving accidents by flood and field,
Of hairbreadth scapes i' th' imminent deadly breach,
Or being taken by the insolent foe
And sold to slavery, of my redemption thence
And portance [manner of acting] in my travel's history,
Wherein of anters [caves] vast and deserts idle,
Rough quarries, rocks, and hills whose heads touch heaven,
It was my hint to speak. Such was my process.
And of the Cannibals that each other eat,
The Anthropophagi, and men whose heads
Grew beneath their shoulders. (...)
A ida de Otelo para Chipre, corresponde, então, ao início do segundo estágio apontado por Bradley. É claro que a mudança geográfica faz-se acompanhar por uma mudança 'psicológica' no mouro. Enquanto Iago e Desdêmona permanecem fiéis ao modelo apresentado no início da peça (o primeiro com suas tramas diabólicas e a segunda com sua bondade), Otelo gradativamente sucumbe às maquinações de seu ancient. O desfecho é nosso velho conhecido e, quando Otelo ensaia adentrar o terceiro estágio descrito por Bradley, Desdêmona já está morta. Esse terceiro estágio se configura como uma tentativa de regresso ao modelo inicial, ainda que ele custe, como é o caso em questão, a vida de três ou cinco inocentes. Ao reconhecer seu erro, Otelo se compara aos bárbaros por ele combatidos há não muito:
(...) Then you must speak
Of one that loved not wisely, but too well;
Of one not easily jealous, but, being wrought,
Perplexed in the extreme; of one whose hand,
Like the base Indian, threw a pearl away
Richer than all his tribe; (...)
Eis que sua própria profecia se cumpriu (But I do love thee! And when I love thee not, / Chaos is come again): trocou a civilização pela barbárie e por isso preferiu morrer.

18 dezembro, 2006

A Sociologia da Igreja

We intend, rather, to establish whether and to what extent religious influences have in fact been partially responsible for the qualitative shaping and the quantitative expansion of that "spirit" across the world, and what concrete aspects of capitalism culture originate from them.
Essa pequena síntese já nos deixa entender que a tese central do The Protestant Ethic and the "Spirit" of Capitalism, clássico do sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), nem sequer aborda a questão do surgimento do capitalismo enquanto forma de organização econômica. Weber lembra repetidas vezes que o capitalismo se estende até os recantos mais longínquos de nossa memória histórica. Egito e Babilônia já o conheciam, e seria uma tremenda estupidez negar a natureza essencialmente capitalista dos grandes centros comerciais italianos durante o período renascentista. Como se vê, o objetivo de Weber é bem mais estreito, mas nem por isso muito menos complicado: ele pretende traçar as origens do "espírito capitalista" tal como será abundantemente definido ao longo de seus ensaios. Assim como qualquer termo empregado ad hoc (segundo o próprio autor) para descrever uma realidade histórica complexa, o "espírito capitalista" não pode ser definido de maneira definitiva; trata-se de um paradigma, um "modelo ideal", que só poderá ser compreendido integralmente ao final da investigação.

Weber cita Benjamin Franklin na tentativa de ilustrar o tal "espírito". Este se refere à sistematização e a otimização de nosso trabalho, como se reconhecêssemos nele uma vocação divina. A grande novidade se refere ao fundo ético presente nessa postura: de fato, não seria muito difícil encontrar, muito antes da reforma protestante, exemplos que se encaixam perfeitamente nesse modelo, com a diferença, alas!, de que esses exemplos eram impulsionados por motivos que nem de longe correspondem a nossa área de interesse. Explica-se: o desejo desenfreado por acúmulo de dinheiro e riquezas em geral, obtido possivelmente através da disciplina no trabalho, também existe desde que o homem é homem. O surgimento de um novo estilo de vida que entende essa racionalização de esforços não como meio de suprir demandas utilitaristas (na acepção mais vil do termo), mas como uma necessidade, um norte ético e um fim em si mesmo, é, segundo argumenta Weber, a própria encarnação do "espírito capitalista" em nosso cotidiano. As implicações da implementação desse espírito na esfera econômica dispensa comentários; cumpre investigar, então, suas origens.

É mais ou menos óbvio que o capitalismo, tal como hoje se apresenta, dispensa motivos religiosos para explicar seu funcionamento. Isso não significa, claro está, que o tal "espírito" revolucionário descrito por Weber não tenha raízes religiosas. Weber enxerga no calvinismo (e nas seitas por ele influenciadas) os preceitos dogmáticos que, uma vez em contato com o mundo secularizado, teriam contribuído para o desenvolvimento do "espírito". O significado corrente da palavra alemã Beruf ("calling", "vocação", "chamado") remonta à tradução, sob a responsabilidade de Lutero, da Bíblia. Nada obstante, a teoria da predestinação (que, como veremos, tem uma relação íntima com o "espírito"), é essencialmente calvinista. Segundo nos conta Calvino, Deus, do alto de sua glória, decide de antemão quem são os "escolhidos" e quem são os "danados". Seria de uma puerilidade tipicamente humana supor que nossos atos nesse mundo poderiam influenciar a decisão divina, que, precisamente por ser divina e anterior a nossa existência, não pode de maneira alguma ser alterada, ainda que paremos de fumar e salvemos um mico-leão dourado por dia. A mente contemporânea provavelmente reagiria a esse terrível determinismo com um to hell with it, mas, numa época em que a salvação da alma tinha uma importância maior que a do futebol nos dias que correm, eram poucos os que ousariam ser tão relaxados a respeito.

Que escolha resta ao calvinista extremado, que se sabe com o destino inalienavelmente selado antes mesmo de sair das fraldas? A primeira consequência parece ser um sentimento exasperante de solidão: se é verdade que ainda vale a máxima latina "não há salvação fora da igreja", sabe-se também que esse preceito adquiriu, com o calvinismo, um viés negativo: de fato, não há salvação fora da igreja, mas nada garante que dentro dela será diferente. O fiel pode, no máximo, certificar-se de que é um dos escolhidos (assim como Calvino estava certo de que o era) através de uma total submissão a sua "vocação". Todos os nossos esforços aqui na Terra não seriam suficientes para demover Deus de sua posição original (sabemos que a mera sugestão é absurda), mas é de se esperar que os escolhidos ajam como tais, isto é, que façam de suas vidas o melhor proveito possível. Do ponto de vista econômico, isso significa sucesso contínuo e inquebrantável, sem pausas para a fruição mundana (altamente condenável) das vantagens conquistadas. Agora entendemos bem por que o rufião antigo ou o usurário medieval nada têm que ver com o "espírito" na acepção dada por Weber.

Weber evita qualquer juízo de valor referente ao corpus dogmático por ele analisado; restringe-se apenas às implicações concretas, para o comportamento humano, do surgimento desse novíssimo "espírito". Ainda assim, saúda-nos com o julgamento proferido por John Milton acerca do Deus calvinista: May I go to hell, but such a God will never compel my respect. O leitor mandrião pode respirar aliviado: ainda que vá para o inferno, certamente irá com numerosa companhia.

Resta comentar o conceito de innerworldly asceticism (em oposição ao otherworldly asceticism), constantemente empregado por Weber para descrever o "novo" capitalista. Ele observa que
If one should wish to apply these concepts, however, then apart from the observations already made, a number of others, which readily present themselves, could even suggest that the supposed antithesis between "unworldliness", "asceticism", and religious piety, on the one hand, and participation in capitalist commerce, on the other hand, might in fact amount to an inner affinity.
É precisamente esse o paradoxo desenvolvido pelo dogma calvinista: o mesmo asceticismo que com os monges católicos servia de mote para uma abstração do mundo material é, agora, transplantado para o mundo secularizado na forma de uma meticulosidade inarredável no cumprimento do "destino" ou "vocação" de cada um. É o que Weber chama de asceticismo protestante. A necessidade de "testar-se a si mesmo" através do trabalho duro e disciplinado que a reforma protestante (liderada pelo calvinismo) incutiu em seus seguidores representa, conclui Weber, fator determinante (mas não único, e esse é um ponto enfatizado à exaustão) para o desenvolvimento do estilo de vida responsável pela propulsão econômica de regiões como a atual Holanda, Inglaterra, sul da França e, last but not least, Estados Unidos. David Landes, numa tentativa crua mas não inexata de resumir a contribuição de Weber para a sociologia da religião, afirma que Max Weber was right. If we learn anything from the history of economic development, it is that culture makes almost all the difference.

14 dezembro, 2006

Fanny

"Fanny," Baltimore Saturday Visiter, May 18, 1833


The dying swan by northern lakes
Sing's [Sings] its wild death song, sweet and clear,
And as the solemn music breaks
O'er hill and glen dissolves in air;
Thus musical thy soft voice came,
Thus trembled on thy tongue my name.

Like sunburst through the ebon cloud,
Which veils the solemn midnight sky,
Piercing cold evening's sable shroud,
Thus came the first glance of that eye;
But like the adamantine rock,
My spirit met and braved the shock.

Let memory the boy recall
Who laid his heart upon thy shrine,
When far away his footsteps fall,
Think that he deem'd thy charms divine;
A victim on love's alter [altar] slain,
By witching eyes which looked disdain.

Tamerlane

11 dezembro, 2006

Algum Cinema

1. Scoop, Woody Allen

Sabe-se de antemão que vale a pena ver o filme por dous motivos: participam dele o próprio Woody Allen e sua mais nova protégée Scarlett Johansson. Allen continua engraçado e Johansson continua... nós todos sabemos o quê. Afora isso, o filme certamente não é dos mais marcantes, e os conselheiros Acácio de plantão estranharão, não sem boa dose de legitimidade, algumas saídas mais excêntricas do roteiro. Exemplos: um milionário que não estranha (pelo contrário, acha divertidíssimo) o fato de sua namorada ser uma impostora que lhe espiona a vida e que, bem mais tarde, ao tentar afogá-la (por outros motivos, claro), não espera para certificar-se de que ela, bem, se afoga. It's all in good fun, diriam os mais relaxados.

2. A Good Year, Ridley Scott

Mais um para os relaxados, ou pelo menos para os que gostariam de relaxar numa vinícola no interior da França. Max Skinner (Russell Crowe) é um banker de sucesso forçado a fazer uma visitinha a terras francesas para dar cabo dos bens de seu recém-falecido tio. O frenesi da vida de um capitalista quase inescrupuloso dá lugar, gradativamente, ao sossego do campo, do vinho e (não exatamente sossego, mas vá lá) das francesas. Destaque para o nome da musa do filme: Fanny Chenal (Marion Cotillard). Lembram-se da Fanny de Edgar Poe?

3. El Laberinto del Fauno, Guillermo del Toro

O filme de del Toro tem recebido elogios entusiásticos graças à força imagética das alusões bíblicas e das referências mitológicas e ao aspecto gráfico em geral. Como lição de história, porém, não vale nem o tempo que gastamos ao discuti-lo. Paralelamente à aventura da garota Sofia, acompanhamos os esforços de um capitão fascista (padrasto da menina) que se esforça para exterminar os últimos resquícios de resistência comunista num vilarejo espanhol, em 1944. O procedimento é nosso velho conhecido: algumas demonstrações de crueldade gratuita por parte do capitão para já ir atiçando nossos ânimos; algumas declarações racistas para certificarmo-nos de que se trata de um verdadeiro canalha (grande novidade!). A partir daí já estamos preparadíssimos para ver com bons olhos a idílica resistência comunista, apesar de ela ser irresponsavelmente suicida. Tanto melhor que seja suicida: esse tipo de heroísmo sem pé nem cabeça tende a fascinar bravos e covardes alike. Temos aqui mais uma bela ilustração da máxima, escrita por não sei quem, segundo a qual algumas verdades parciais são mais obscurantistas que a mais completa escuridão. É desagradável ter de repetir isso tantas vezes, mas um filme assume uma responsabilidade tremenda ao nos mostrar apenas um dos lados (além de entrar para o hall dos filmes politicamente delinquentes). O tratamento que geralmente se dá à guerra civil espanhola é sintomático desse mal.

Férias e a Volúpia da Ociosidade (Reprise)

De volta ao conforto (e ao calor) do lar, de férias. Pretendo continuar contribuindo para a manutenção da paz mundial permanecendo calado quando não me pedem a opinião.